CONTO | O ESCRITOR - LeandroVSilva® | VIP


O ESCRITOR

A viela estava vazia, observada e banhada pela palidez da lua cheia, num beco ao norte da cidade um corvo passou voando pelo céu noturno vindo de um lugar frio, e pousou num parapeito de persianas abertas. Os olhos castanhos escuros atrás das lentes transparentes e redondas dos óculos de grau encararam o pássaro negro e brilhante de olhos vermelhos.

O corvo grasnou um ruído estridente e pouco convidativo, a campainha tocou ressoando pelos três cômodos da pequena moradia.

O Escritor se levantou devagar do seu lugar já ocupado há bastante tempo em frente ao seu velho notebook, enquanto se dirigia à porta da frente, dobrava as mangas do suéter azul escuro até as dobras dos cotovelos.

A campainha foi tocada novamente, e ele abriu a porta, encontrando sobre o carpete da entrada, uma mulher jovem de cabelos escuros, compridos e lisos, pequena e com uma aparência ligeiramente indefesa.

– Boa noite. – Disse ela com uma excitação contida na voz.

O escritor analisou os lábios pequenos e de aparência rosada, lhe deu um sorriso simpático e estendeu a mão para cumprimentar a jovem Jornalista.

– Boa noite, entre minha querida. Está frio. – Respondeu ele com uma voz paciente e um pouco menos grave do que de costume.

Ela lhe retribuiu o sorriso dócil, e entrou no aposento, a casa estava bem organizada, exceto pela mesa do notebook, estava cheia de folhas amassadas, incontáveis livros abertos e espalhados, todos da autoria do próprio, na tela do computador, havia um novo texto, que acabara de ser iniciado, no lugar do título estava escrito três pontos de interrogação, a moça ficou encantada e ao mesmo tempo confusa…

– Fique à vontade enquanto pego um café para nós. – O escritor apanhou o casaco da jornalista e pendurou no cabide da porta.

Enquanto ele se dirigia para a cozinha, ela se aproximava da mesa do notebook, lendo o que havia escrito ali por um instante…

“Quando os corvos da cidade entravam pelas janelas alheias, sempre era um agouro de que a morte estava próxima, e de que alguém nunca mais voltaria para casa na noite tranquila da cidade de Oãs–Olupa. Os olhos da mulher se voltaram para o portal escuro de luzes apagadas, e lá estava, o que ela jamais imaginou que existia…”…

– Gostando do que está lendo? – A Jornalista deu um sobressalto sentindo seu coração na garganta, voltou sua atenção para o portal de entrada do aposento. O Escritor estava parado com duas xícaras de café quentes e esfumaçando, no rosto um sorriso branco e alinhado que era repleto de serenidade estampado.

– Desculpe! – Disse ela apanhando a xícara que ele ofereceu com a mão direita.

– Não por isso meu bem. Eu que peço perdão, te assustei… Queira sentar–se, eh, nossa entrevista não vai demorar, vai?

A Jornalista se sentou numa poltrona no canto da sala e o homem puxou a cadeira mais próxima, se sentando de frente para ela com os cotovelos apoiados nos joelhos.

– Bom, será uma entrevista rápida. – Ela puxou um celular de dentro do sutiã. Colocou no bloco de notas do aparelho, e se pôs a conversar com o Escritor, ele tinha cerca de 40 anos, era grisalho de cabelos bem penteados, medianos e úmidos com leves ondulações, tinha uma barba por fazer de pelos castanhos e prateados, os óculos de lentes redondas já eram fora de moda, mas quem ligava? Ele mesmo só permanecia o usando por falta de vontade de sair de casa para ir ao oftalmologista trocar as lentes ou realizar os exames anuais.

A casa cheirava à orquídea, e o café tinha um gosto artificial de adoçante antigo, a conversa se estendeu por muitos minutos, a Jornalista estava maravilhada com o que o Escritor dizia, ele narrava às histórias de pessoas que o inspiravam, falava de títulos dele, repletos de comédia trágica, e de como as histórias de seus romances eram tão cheias de imaginação urbana e presentes, que ele mal conseguia manter–se preso a uma única narrativa. Ele contava sobre a inspiração do livro “A Dama Vermelha”, que narrava à história de uma mulher que por “acidente” envenenou os filhos, e antes do marido chegar do serviço, ela os enterrou no quintal de casa, e quando fora questionada sobre o paradeiro dos meninos, alegou que os filhos fugiram com o circo que zarpara da cidade naquela manhã, o marido então a matou, porque a única coisa que o impedia de matar a irritante e problemática mulher era justamente o amor aos filhos, e agora não havia mais porque se negar a fazer o que ele sempre quis, mas que nunca pôde fazer.

Os livros e narrativas do Escritor eram cheias de carma e angústias disfarçadas de comédia negra e mal colocada, quando perguntou sobre o novo livro, o homem deu um sorriso largo, e apenas respondeu: “Meus livros são uma extensão do que eu vivo minha jovem.”. A jornalista deu um gole profundo no café, não entendeu muito bem o que o ele quis dizer com aquilo, mas deixou passar batido, o homem era simpático, ria de maneira leve, fazia graça para quebrar o gelo nas perguntas mais embaraçosas, suas olheiras profundas foram explicadas na entrevista como um grave caso de insônia adolescente, que se estendeu para a vida adulta e se tornou um probleminha crônico, a Jornalista admirava o homem, estava lisonjeada por ter sido escolhida como a responsável pela matéria que iria publicar com o famoso autor, estava tão excitada, que mal conseguia fazer algumas perguntas sem que uma ou duas palavras delas fosse repetida pelo menos duas vezes durante a questão.

Quando questionado a respeito dos títulos que ele escolhia, o Escritor sorriu e falou: “Os títulos, muitas vezes entregam muito da história, então me apego apenas a uma ou duas palavras para não estragar a experiência do leitor, estou querendo mudar isso nesse novo projeto.”, a Jornalista estava encantada, e se sentia quente na presença do homem, os títulos mais conhecidos do Escritor até onde ela se lembrava; era os livros da saga “O Monstro que me Habita”; saga formada pelos livros; “A Personal Desaparecida”; que contava como uma mulher saiu da academia e encontrou um monstro dentro da lixeira na rua em que passava diariamente para ir embora. “A Médica e o Monstro”; que relatava a história de amor entre uma médica que atendeu no hospital um paciente que ela não sabia que era um demônio que havia se ferido numa briga contra um anjo, e que depois de salvar a vida do seu amado, a mulher teve um fim trágico devido ao seu amor proibido. “A Tatuada Estripada”; até então maior sucesso de vendas do ano anterior, o livro narrava o cotidiano de uma tatuadora, que aceitava como pagamento pelos seus trabalhos informais, favores sexuais sadomasoquistas, que num determinado dia, atendeu um cliente que a sequestrou para um lugar no qual ela foi torturada diariamente, até enlouquecer. “A Motorista sem Destino”; que continha a história de uma Uber, que num determinado dia de trabalho iniciou uma corrida com um passageiro misterioso, e desapareceu do volante para um lugar desconhecido. E por fim, “A Garota do Colégio”; o livro mais criticado e polêmico da saga, nesse, a narrativa seguia uma pré–adolescente que foi seduzida por um professor novato no colégio, e se mudou para morar com o homem após brigar com os pais, tendo assim, um fim triste e completamente brutal.

A Jornalista perguntou qual era o título do próximo livro da saga, e quando sairia. O Escritor deu um sorriso simpático e olhou ela nos olhos…

– Bom, acho que está um pouco cedo para dar um título, mas estou pensando em algo bem sombrio e misterioso.

– Bem, espero que consiga a inspiração ideal… A jornalista se levantou da poltrona e o Escritor se levantou para acompanhá-la até a porta…

Do parapeito da janela, o corvo grasnou estacionado no batente.

O homem e a mulher olharam para o pássaro, seus olhos vermelhos brilharam para os dois… O homem sorriu com o leve susto que ambos tomaram com o grasnado…

– O que você acha… – O Escritor apanhou o casaco da Jornalista no cabide atrás da porta. – De um título relacionado a corvos?

A jornalista olhou confusa para o notebook abaixo do batente. Ela havia lido pouco do livro, mas achou até apropriado para o que tinha visto na tela…

– Você é um excelente autor, mas não sei muito do que se trata o livro, se me disser… Talvez eu possa opinar se é apropriado.

Ela deu um sorriso tímido para o homem.

– Bom… O livro vai contar a história de uma moça jovem, solteira e sem parentes na cidade onde vivia, ela trabalha como escritora de cultura literária no jornal local, e em um determinado dia, ela é escolhida por um autor famoso para entrevistá-lo e saber um pouco mais do próximo lançamento oficial dele… – A Jornalista ouvia com atenção, e enquanto olhava concentrada para o corvo na janela, ela ouviu a voz calma do Escritor dizendo: “Mas quando chega à entrevista, o autor revela para ela que ele é um demônio, e que devora mulheres desde o século XVII para sobreviver após ter sido jogado na terra durante uma batalha com um anjo, ele às vezes tomava café com calmantes para tentar dormir e espantar a insônia crônica que tinha desde então, mas que apenas os corpos humanos eram atingidos pelo efeito esmagador dos remédios.”.

A Jornalista se sentou na cadeira de repente, e sentiu como se um peso vertiginoso fosse colocado em cima da sua cabeça.

O Escritor ajudou a moça a se manter sentada, estava atordoada e relaxada ao mesmo tempo…

– Está tudo bem? – Ele perguntou encarando os olhos da mulher profundamente, ela fitou os olhos do Escritor… Eles estavam pelo menos quatro tons mais claros do que mais cedo… Quase vermelhos e em chamas, as íris estavam se espalhando dentro dos globos oculares, como tinta derramada em uma grande quantidade de água.

– Se… Seus romances… – começou ela, mas não conseguiu terminar a frase… Sentia–se com a língua pesada.

– Ah não, não… Romances não fazem muito a minha praia, amor… – O Escritor olhou para o notebook e para o corvo, depois olhou para a mulher novamente dando um sorriso de dentes serrilhados e pontiagudos. – Meus livros são quase sempre biográficos, meu bem.

– A sa… saga do mon… Monstro que me Habita…

O Escritor lhe dirigiu um último sorriso. Ela sentia os olhos pesando. Se fechando lentamente, a mente se perdendo entre o real e a sonolência… Quando seus olhos se fecharam, ao longe, ela ouviu uma voz grave e inumana dizendo:

– O que acha do título: “A Jornalista sob o olhar do corvo”?

Fim.

 

5
Rated 5 out of 5
5 out of 5 stars (based on 1 review)
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Muito ruim0%

Surpreendente

Rated 5 out of 5
1 de agosto de 2020

Gostei bastante do conto.
A atmosfera de suspense já me dava sinais sobre o final, mas a forma como aconteceu me surpreendeu (já que eu cogitava várias outras possibilidades😅)
Muito bom!

Gessika

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