CAPÍTULO 4

    A entrevista rolava como um bate-papo entre amigo. O que eu não esperava nenhum um pouco. Mas Jean era uma pessoa muito sociável, mais do que os relatos de outras matérias davam a entender. Talvez isso tenha sido proposital, afinal, se você é o dono de um conglomerado enorme como era o Artigianale, certamente que você buscaria transmitir uma imagem sólida e confiante, mas por trás daquilo tudo, batia o coração de alguém que preza pela família.

 

    E foi assim que todo aquele império começou: com o sonho do pai de Jean, que idealizou tudo antes mesmo dele nascer, já com a intenção de transformar a pequena sorveteria de uma cidadezinha do subúrbio, em uma grande franquia capaz de comprar suas concorrentes. Criado desde pequeno para dar continuidade ao negócio da família, ele cresceu dentro da sorveteria. O que queria dizer que ele não era um mero engravatado atrás de uma mesa, se precisasse, ele arregaçava as mangas e colocava a mão na massa.

 

    O que por si só já era algo incrível.

 

    Sua mãe era uma artista, e graças a ela que tudo aquilo foi possível, pois no início, era os ganhos dela que sustentavam a pequena lojinha, até que esta passou a se sustentar e não depender do trabalho da mãe de Jean, que nunca deixou de ajudar como podia.

 

    Pelo que disse, como era sempre cobrado por seu pai a eficiência, Jean sempre fora um aluno exemplar e tudo mais. Não fumava, nem bebia… Era um cara… Legal?

 

— Pela cara que faz, suponho que tenha imaginado que eu era como esses CEO babacas de romances eróticos. Não? – disse ele rindo.

 

    Eu tentei achar graça, mas de certa forma, foi o que pensei, não? Se bem que essa pode ser mais uma jogada, para esconder esse lado dele.

 

— Bom. Se está sugerindo isso, creio que sabe que você tem pinta desse tipo de cara.

 

— É eu sei. – constatou ele rindo ainda mais – É até difícil sair na ruas às vezes…

 

— O que sua namorada diz sobre isso? – testei jogar uma verde.

 

— Não tenho namorada.

 

— Só pode tá brincando? – indaguei incrédula.

 

— Só porque tenho cara de galanteador, não significa que eu seja um. – disse ele um pouco mais sério, mas sem perder o sorriso.

 

— É difícil acreditar. – será que ele estava tentando me despistar para eu achar que ele tá acessível? – Mas é sério mesmo? Nenhuma namorada, peguete ou ficante?

 

    Ele fechou a cara e ficou bem sério. E aquilo me deixou com um certo receio.

 

— É tão decepcionante ver uma mulher machista… – disse ele com tom de desânimo.

 

— Eu? Machista? – e essa agora!?

 

— É bem verdade que nossa sociedade por si só já é machista, e muito provavelmente você o seja sem saber, por pura osmose. Mas só por que sou bonito, rico e esteja sendo educado com você, não significa que eu seja um garanhão, tanto mesmo que eu esteja flertando para te levar pra cama. – constatou ele me encarando com desapontamento.

 

    Eu fiquei chocada! Nem consegui falar nada… Ele realmente estava falando sério? Será que ele é gay?

 

— E eu não sou gay. – respondeu ele rispidamente.

 

    Ele tá lendo minha mente?

 

    Por um instante ficamos em silêncio, pois eu não sabia o que dizer. Mas pensando bem, se ele não estava me cantando, então…

 

— Porque então assoprou meu pescoço lá fora? – perguntei sem jeito.

 

— Tinha uma abelha no seu cabelo. – respondeu ele ainda sério – Você provavelmente passou pela sorveteria antes de vir para cá. É comum elas aparecerem por lá. Não queria correr o risco de que você fosse ferroada, tanto menos que matasse a pobrezinha. Logo…

 

— Tá mais e o lance de me morder se eu quisesse?

 

— Tudo o que todos dizem tem que ter uma conotação sexual? – resmungou ele cruzando os braços – Vejo que vem erotizando nossa conversa há algum tempo. Se fosse eu fazendo isso, você gostaria?

 

— Não, mas…

 

— Só porque outros homens são uns pervertidos, não significa que todos sejam. E só porque um homem não age dessa forma com uma mulher, não significa que ele seja homossexual. – disse ele mal humorado – Eu apenas as respeito como tanto pedem que seja feito. Mas se sou respeitoso, sou gay. Se ofereço ajuda para a carregar sacolas de compra, sou machista, se fico na minha, sou sem noção… Sabe. Desse jeito é difícil! – complementou ele como se estivesse cansado de dizer aquilo.

 

    Gente! Estou chocada! Eu realmente o entendi mal, e ele estava ofendido.

 

    Quer dizer, ele ainda podia estar fingindo só para me amolecer, mas da forma como ele dizia, ou ele estava falando sério, ou ele era um excelente mentiroso.

 

— Me perdoe Jean, mas é que… – o que dizer? – É que é tão mais comum…

 

— Eu lhe avisei que não sou comum. – ele cortou minha fala.

 

    De fato, ele havia dito isso.

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