CAPÍTULO 5

Uma semana havia se passado desde que Guerrard tomou a decisão de deixar Lúcia em paz, mas estava sendo difícil ficar distante. Ele queria vê-la. Nem que fosse só mais uma vez. Era ridículo pensar que saciar aquela vontade fosse fazer alguma diferença, porém, a cada dia que passava, o demônio sentia mais vontade de se encontrar novamente com a garota imaculada.

Mas o que faria ao revê-la? Ela estava com a marca, e certamente o odiava por isso. Como se a raiva dela importasse…

Importava?

Guerrard sentia que precisava de um motivo para se encontrar novamente com Lúcia. Mas qual?

— Olá meu príncipe… – sussurrou uma mulher ao pé do ouvido de Guerrard.

Era Lex. Só podia ser aquela criatura inconvenientemente irritante.

Na verdade, todas as succubus eram irritantes para Guerrard. Só pensavam em sexo, e viam no príncipe infernal apenas a oportunidade de ensinar os prazeres da carne aquele que seria o dono daquela posologia no futuro. Elas acreditavam que assim como o pai, ele seria a melhor experiência da existência delas, e a primeira a chegar seria uma sortuda felizarda. Mas Guerrard nunca ligou para sexo. Tinha coisa mais relevantes para pensar ou fazer, ao invés de ficar fornicando com uma luxuriosa chata e sem controle. Para piorar, a insistência delas, era ainda mais irritante, sempre provocando mais sua ira, do que qualquer tipo de luxúria.

— Então! Quais os planos para o carnaval? – disse ela sorrindo – Posso finalmente te ensinar como se divertir nessa festança regada de luxúria e prazer?

— Laz… Tire-a daqui. – rosnou Guerrard ao perceber que o íncubus estava ali.

Laz imediatamente se valeu de suas duas caudas serpenteantes para imobilizar e suspender a irmã, que parecia se divertir com a ação.

— Ho, ho, hooo! Isso tá interessante! – gritou a succubus entusiasmada.

— Cala a boca, puta dos Infernos! – rosnou Guerrard – É incrível como essa cabeça desprovida de cérebro não saca quando é indesejada!

— Aí! Assim… – Lex não conseguiu concluir sua frase, pois o irmão lhe tapou a boca.

— Me perdoe, meu príncipe. Há algo que possamos fazer por você em relação às almas que precisa terminar de coletar? Creio que Lord Abaddon se perguntará em breve o porquê de sua demora em retornar.

Era isso!

— Mantendo essa vadia que chama de irmã longe de mim, já está ótimo! Porém, seja mais eficiente nisso, Laz. – alertou Guerrard se dirigindo à saída – Tenho coisas mais importante pra fazer e seria ótimo não ter que ver a fuça dela. Nunca mais, de preferência…

Partindo antes que o íncubus pudesse responder, rapidamente Guerrard se viu diante de uma pequena agência dos Correios, que mais parecia uma simples casa cinza com a logo da empresa de serviços postais na fachada. Era até engraçado o fato dela ficar entre um estacionamento e uma pequena livraria.

Lá estava Lúcia, saindo da agência. Sua mente fervilhava em reclamações, se lamentando o tempo que perdeu ao ir até ali, para descobrir que seu plano de ensino se quer saiu daquele lugar por conta de uma greve. Isso sem contar que ela havia esquecido de ir atrás de sua pós-graduação em uma faculdade. Basicamente, nada do que ela havia planejado para fazer ao se mudar havia se concretizado, tudo estava dando errado, fazendo Lúcia se perguntar se teria com as coisas ficarem piores.

— Sempre tem… – comentou Guerrard para que ela notasse sua presença.

— O que quer? – perguntou a moça em tom seco.

— Credo! Isso são modos de me tratar? – ele retrucou ao estranhar o comportamento atípico.

Estaria ela tão irritada assim? Ela sempre foi serena e calma, mesmo quando ele a provocava ou amedrontava, mas agora ela estava… Diferente…

— Poderíamos ir para um lugar mais reservado? – perguntou Guerrard sussurrando ao pé do ouvido da garota – Não creio que gostará que outras pessoas escutem o que vim lhe pedir.

Lúcia engoliu em seco. Ela estava apreensiva, imaginando que ação humilhante e constrangedora ele faria com que ela se submetesse. 

— Não chega a tanto. Mas vamos sair daqui. – resmungou o demônio, enquanto saía de onde estavam, seguindo a calçada.

Lúcia o seguiu, já preocupada com o que viria a seguir. Os pensamentos dela saltava entre todas as possibilidades baseadas no que Guerrard já havia mandado ela fazer. Eram hipóteses e memórias que iam e vinham numa velocidade que fez com que Guerrard decidisse parar de prestar atenção, antes que sua cabeça explodisse.

Ele apenas precisava que ela fosse a um lugar. Apenas isso. Não parecia absurdo. De quebra, teria exatamente o que queria: uma desculpa para vê-la; um pretexto para justificar deixá-la em paz; e a última alma que havia negociado, e que quase esqueceu que existia.

Andaram por um bom tempo, até encontrarem o estacionamento de uma casa que estava vazia. Era praticamente impossível ver o que acontecia ali dentro, por conta das árvores não cuidadas que obstruíam a visão da entrada do local. Lá, o demônio parou de andar e puxou Lúcia pelo braço para dentro do estacionamento, colocando-a contra a parede do fundo, e saindo da zona de visão dos carros na rua.

— Hoje vamos para uma festa. – revelou Guerrard.

— O que? – Lúcia parecia não entender.

— Hoje começam as festanças de carnaval. Tenho certeza que um certo alguém estará em um lugar específico por conta disso. – falava o demônio sem demonstrar muita emoção. – Antes de negociar sua alma, eu tinha mais algumas na frente. Tom e Mercedes eram umas delas.

Lúcia se sentiu mal ao ouvi-lo mencionar Mercedes e isso gerou um certo desconforto em Guerrard.

Acabe logo com isso!

— Mas tem mais uma faltando antes da sua. Porém, quero lhe propor um adendo ao nosso acordo.

— Como é? – questionou Lúcia incrédula.

— Disse que enquanto me servisse como escrava a manteria viva. Não pretendo mudar isso. Mas me ajudando a pegar essa última alma, posso prometer lhe deixar em paz até o dia de sua morte, onde só então eu recolheria sua alma. Que tal?

A resposta não veio tão rápido como Guerrard queria, mas já era de se esperar daquela garota maluca e sem amor próprio. Ele se esforçava para parecer calmo e sem expressão, para esconder o quanto a demora dela em responder ou tomar decisões o irritava, mas esse tipo de atitude fez com que ela ficasse mais confusa e cogitasse a possibilidade dele estar mentindo, e por mais que ele fosse um demônio babaca, mentiroso era algo que definitivamente ele não era.

— Só pra constar, eu nunca minto. Provavelmente prefiro não falar toda a verdade, mas mentir não faz meu estilo. – respondeu Guerrard a encarando com uma leve nota de raiva e indignação na voz.

Lúcia ficou surpresa com o comentário. Sua mente fervilhava em cada vez mais questões sobre como eram os demônio, mais em específico, aquele a sua frente. Mas os pensamentos delas eram tolos, baseados em crendices e superstições equivocadas, e isso estava começando a ficar irritantemente insuportável.

— Pare de ficar remoendo essas coisas. Vai aceitar a nova proposta ou não? – Guerrard parecia claramente mais irritado.

— E como ficariam Suelen e Heliot?

— Fala sério! Você realmente só pensa neles?

Que garota CHATA!

— Me vendi a você para protegê-los. Realmente lhe parece tão absurdo que eu pense nos dois, antes de pensar em mim? – Lúcia encarava o demônio, agora era ela quem estava irritada.

Aquela resposta pegou Guerrard de surpresa. Pensando daquele modo, fazia todo sentido o raciocínio dela, embora isso não a tornasse menos irritante, mas…

Saco!

Guerrard suspirou derrotado depois de um tempo em silêncio.

— Como eu já havia dito. – ele se afastou um pouco dela – Estarão protegidos de perigos externos a eles enquanto você viver. Com o que lhe proponho agora, só o que muda é que esperarei até o dia em que você morrer para recolher sua alma. Isso pode ser amanhã, daqui quinze, trinta, sessenta anos… Não importa! No dia em que a Morte decidir que é a sua hora, eu estarei lá para levar sua alma comigo para o Inferno.

A última frase soou extremamente sombria para Lúcia. Ela havia se esquecido que ao fechar o pacto com o demônio, automaticamente sua alma estava condenada ao Inferno.

— Mas… E quanto a essa marca que colocou em mim? – perguntou Lúcia com receio da resposta.

O demônio bufou irritado.

— Isso não está negociável. – ele a encarou de forma estranha, sem entender porque estava se irritando em explicar aquilo – Ficará com ela até me dar o que lhe pedi.

— Por que faz tanta questão disso?

— Tenho meus motivos… – respondeu ele quase que imediatamente.

E quais seriam? É só a aposta? Tem certeza?

— Motivos? Que motivos um demônio teria para querer que uma mulher o beije de livre e espontânea vontade? – o tom de indignação de Lúcia fazia com que ela fosse gritando aos poucos – Ainda mais você tendo poder sobre mim. Pode me ordena a fazer o que quiser, e agora me aparece com essa proposta de me deixar viver em paz, mas não pretende tirar essa… COISA, de mim. Como pretende que eu viva em paz com isso?

— Eu deveria me importar com isso? – respondeu Guerrard friamente – O que você vai fazer da sua vida, não me importa.

Tem realmente certeza disso?

— Se não quer me dar o que quero para retirar essa marca, também não me importa. Só o que realmente me tem utilidade em você é sua alma.

De fato aquelas palavras eram verdade, mas lá no fundo algo gritava, tentando dizer algo mais sobre aquela garota, que só tem testado a paciência de Guerrard e ainda estava viva.

— Então porque RAIOS me fez vender meu corpo a você se não lhe é útil? – Lúcia agora estava gritando com o demônio, o encarando com raiva.

Porque?

A raiva nos olhos que Lúcia não chegava nem perto de ser intimidadora, mas olhar aquele sentimento, que era tão bem compreendido por Guerrard, nos olhos dela, provocou um embrulho no estômago do demônio. Se é que isso era possível.

Estava na cara que esse não era o rumo para o qual ele queria que aquela conversa fosse. Ele estava ali só para justificar ficar mais um tempo com a garota, para então deixá-la em paz. Mas ela tinha que pisar nos calos dele!

Guerrard já estava cansado de sempre exigirem que ele se explicasse sobre aquele pacto. Porque dizer que simplesmente quis fazer aquilo não era uma resposta boa o suficiente? Porque ele tinha que ter um motivo?

Que MERDA!

Sem responder à pergunta de Lúcia, Guerrard a apertou contra a parede segurando-a pelo pescoço. Podia-se ver claramente a fúria em seus olhos vermelhos. Havia um desejo assassino neles, mas algo o impedia de acabar com ela naquele instante. Era a mesma sensação de noites atrás. Mas aquela sensação não diminuiu sua raiva, apenas a aumentou, pois ele estava se cansando de sentir aquelas coisas que não entendia de onde vinham.

— O que faço ou deixo de fazer não te interessa. – respondeu ele rispidamente. – Me encontre na interseção entre a rua Coronel Diogo e a Mariano Procópio, às oito em ponto. E se não aparecer, terei o prazer em tornar sua vida um inferno, até que implore para que eu leve sua alma o mais cedo possível.

O demônio então a soltou jogando-a contra o chão.

— Se aparecer, te deixo morrer em paz no seu tempo. Mas sabe o que tem que fazer para que eu retire essa marca de você. – ele se dirigia para a saída do beco – Quem sabe você não muda de ideia até a noite…

Aquela aposta idiota não importava mais, porém, no fundo Guerrard queria conseguir aquele beijo, pois tanto problemas e confusões haviam surgido por conta daquilo, que a curiosidade de saber qual era a sensação de beijar aquela garota estava cutucando sua mente. Ele queria aquilo, e provavelmente mais do que queria ganhar aquela aposta imbecil, mas se ela continuasse se recusando, ele não podia fazer nada além de provocá-la.

— A propósito. Vista algo bem sexy.

Ele então sumiu, deixando Lúcia sozinha no beco. Em questão de segundos Guerrard já estava em cima de um prédio baixo que ficava em frente ao local que ele disse para Lúcia o encontrar, e se não fosse pela pilha de caixas de papelão e pedaços de isopor amontoados ali, provavelmente ele teria destruído algo da estrutura do prédio.

— Vista algo SEXY!? – ele berrou e riu logo em seguida – É sério que eu disse isso?

Guerrard se justificava dizendo a si mesmo que aquilo era necessário para o que precisavam fazer naquela noite. Mas seria só isso?

 

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