A ENTREVISTA | CAPÍTULO 6

CAPÍTULO 6

    Céus! Quando em sã consciência eu ia imaginar que uma entrevista iria se torna um espécie de aula sobre esteriótipos e igualdade dos gêneros?

 

    Com certeza Jean é um cara fora dos padrões, e quem dera todo homem tivesse ao menos seu tipo de visão. Se bem que não só os homens, mas também as mulheres, pois realmente tem umas que pelo amor de Deus! Isso sem falar dos extremistas que se ofendem e reclamam por qualquer coisa.

 

— Você me parece bem surpresa. – disse ele me olhando de uma forma que não decifrei.

 

— Positivamente surpresa. – respondi com um sorriso sem graça.

 

— Fico feliz por isso. – ele sorriu daquela forma encantadora.

 

— Sério mesmo que você não está flertando comigo? – perguntei brincando pra tentar descontrair e disfarçar minha falta de jeito.

 

    Ele riu.

 

— Está parecendo tanto assim? – ele perguntou me encarando com a sobrancelha arqueada.

 

— Pode ser minha falta de hábito, ou as referências ruins… Mas sim, parece um pouco. – respondi sendo sincera.

 

— E na sua opinião, esse tipo de coisa funciona? – perguntou com uma nítida curiosidade no olhar.

 

— Ah! Bom… – tossi para limpar a garganta – Deve funcionar para alguém. — respondi sem jeito.

 

— Funciona pra você?

 

    Foi então que comecei a tossir por cerca de… um minuto inteiro? Talvez não? Nem sei. Mas novamente fui pega de surpresa e acabei engasgando com o ar. O que, diga-se de passagem, é algo extremamente idiota e dolorido.

 

    Jean ficou me encarando, tentando não rir, mas tava na cara dele que queria rir da cena que eu estava fazendo, no entanto, ele apenas respirou fundo e voltou a falar.

 

— Desculpe por isso. – disse ele enchendo e passando o copo de água para mim – Mas é que falei tanto sobre mim, que não achei que faria mal perguntar algo sobre você.

 

— Tinha que fazer justo essa pergunta, maldito!?

 

— Como é?

 

    Merda! Eu e minha boca grande.

 

— Vejo que você já sofreu bastante por conta de homens. – disse ele se recostando novamente na cadeira e desviando o olhar de mim – Lamento por isso, e me desculpe se a deixou desconfortável. Não era minha intenção…

 

    Ai droga! Estraguei tudo!

 

    Ficamos um tempo em silêncio. Basicamente não tinha mais o porque daquela entrevista, mas ele não me mandou embora, tanto menos eu quis partir. Eu não podia ir depois de tê-lo chamado de “maldito”, apesar de ter provocado aquilo… Jean era um cara legal, não merecia aquilo só porque eu estou sempre numa defensiva beligerante, quando o assunto é o sexo oposto.

 

    Bebi uma demorada golada de água. Suspirei pesadamente, e quebrei o silêncio.

 

— Desculpe-me Jean. Não queria ofendê-lo, mas é que desde que cheguei, tudo em você dava sinais de que estava dando em cima de mim, e eu não gosto disso… – expliquei.

 

— Imagino que não. Eu também não gosto, porque outra pessoa gostaria?

 

— Não tem ideia do quanto acho extraordinário você ter esse tipo de pensamento. E me sinto mal por tê-lo julgado da forma que julgo todo e qualquer homem. Mas é a forma que tenho para me defender.

 

— Compreendo. Inclusive, isso explica o porque de todas as mulheres que já passaram por aqui, você ser a única que se manteve distante. – ele riu – Acho redundante dizer que todas as outras deram em cima de mim, né?

 

— Imagino. – respondi revirando os olhos.

 

    Ele riu, mas dessa vez sua risada foi divertida e gostosa de se ouvir. Era tão boa e contagiante, que não resisti e rir junto dele.

 

— Sabe… – disse ele finalmente após rimos por um bom tempo – Meu pai se casou com minha mãe, não foi por que ela era bonita ou porque ela tinha dinheiro…

 

    Eu o encarei confusa. Porque ele tinha voltado ao assunto dos pais dele?

 

— Ela era bonita sim. Apesar de não gostar de se arrumar ou maquia. Sabe, era uma beleza natural e simples, mas ainda assim bem atraente. Ela não era rica, mas ganhava bastante com sua arte, se tornando um bom partido financeiro. – ele continuou passando a me encarar nos olhos – Mas meu pai me disse que a escolheu por causa do coração dela.

 

    Devo ter esbugalhado meus olhos com aquelas palavras, pois ele passou a me olhar novamente daquela forma que eu não decifrava.

 

— Meu pai era amargurado e descrente com a humanidade. Já minha mãe era sonhadora e bondosa. E por algum motivo, o compreendia. Logo, ele a viu como sendo o coração que ele perdeu no decorrer de sua vida, sendo assim, era impossível não amá-la e desejar um futuro ao lado dela.

 

— Nossa…

 

— Já minha mãe via em meu pai o garoto que teve que virar homem muito rapidamente. Alguém que nunca se permitiu falhar, que desprezava maioria das pessoas e carecia de amor.

 

— Caramba, mas eles são bem diferentes. Como vivem juntos até hoje?

 

— Diálogo, aceitação, compreensão… Eles nunca brigaram. Não concordam em tudo, mas sabem dialogar e aceitar a perspectiva um do outro. Sem falar que um era o que o outro precisava, em diversos aspectos. – ele riu por um instante – Me lembro que sempre que discutiam, um estava sempre calmo, mesmo que o outro gritasse irritado. Era engraçado de ver.

 

— Como eles se conheceram? Se não for me intrometer demais… – perguntei insegura.

 

— Internet. Num fórum de arte. – eu o encarei incrédula – Sério! Meu pai apesar de não ter talento algum para isso, sempre foi um apreciador. E ao se conhecerem a distância e viverem separados por um bom tempo, o que os uniu foi algo que não muda com o tempo: a alma. Logo, não importa se minha mãe era linda quando nova e nem tanto agora que está velha, foi a alma dela, e no caso o coração também, que fez meu pai se apaixonar. E no fim, ambos queriam um parceiro para formar uma família, logo…

 

— Isso é algo raro.

 

— Isso é o que todos deviam fazer, mas como a maioria é egoísta, dificilmente acontece. E mesmo quando acontece, poucos dão o devido valor. Lamentável, não?

 

— Sim. – respondi de forma meio vaga, pois eu estava refletindo no que ele dissera – É isso então? – ele me olhou com cautela – Você quer fazer como ele, e achar a mulher que lhe completa assim como sua mãe completou a vida de seu pai?

 

    Ele abriu um tímido sorriso.

 

— Não custa tentar, né? Apesar de que, acho que achei essa mulher, mas não vou força-la a ficar comigo, só porque para mim ela é o que eu buscava. – ele coçou a cabeça – Afinal, posso não ser o que ela busca, ela teria que me conhecer direito, ver meus defeitos, pra ter certeza de que quer construir uma vida ao meu lado.

 

— Você tem defeitos? – comentei brincando.

 

— Todo mundo tem defeitos, mesmo que a própria pessoa não perceba. Por isso a convivência é importante. É no dia a dia que se conhece uma pessoa.

 

— Gosto da sua forma de pensar. – abri-lhe um sorriso sincero – Espero que tenha sorte com essa garota. Você merece. Sem falar que ela teria de ser uma idiota para não querer ficar com você.

 

    Ele riu, mas não disse mais nada depois disso.

 

    Comecei a guardar minhas coisas e a me despedir, pois já havíamos estourado a tempo da entrevista. Eu ainda tinha coisas a fazer naquele dia, e ele também.

 

    Já estava novamente no corredor da empresa, quando ouvi Jean me chamando da porta de seu escritório.

 

    Será que eu esqueci algo?

 

— Queria saber se você aceitaria vir lanchar comigo na sorveteria, qualquer dia desses? – perguntou ele meio acanhado.

 

    Que? Eu ouvi direito?

 

    O encarei incrédula por um tempo, até minha ficha cair, me fazendo rir abobalhada por não ter percebido antes.

 

— Por acaso você não está me chamando para um encontro, não é? – questionei colocando as mãos na cintura e o encarando incrédula.

 

— Não será, a menos que queira. – respondeu ele sem jeito.

 

    Em resposta eu apenas ri e entrei no elevador, gritando e apontando para ele antes de fechar a porta.

 

— A ideia foi sua. Então você paga essa!

 

    Antes da porta fechar, o ouvi gritando em resposta.

 

— Justo!




Fim…

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A ENTREVISTA | CAPÍTULO 5

CAPÍTULO 5

    Eu estava com a cara no chão de tão envergonhada. Definitivamente eu deveria parar a entrevista ali, mas aquela situação era tão incomum, que não me contive em continuar.

 

— Por acaso… – titubeei insegura – Você é virgem?

 

    Ele começou a gargalhar de uma forma que me deixou mais desconfortável.

 

— Gostaria de poder dizer que sim. Mas infelizmente, quando se é adolescente, é quando mais se faz merda. Principalmente quando essa nossa sociedade pressiona os garotos a isso. – ele riu com escárnio — Se é virgem: é maricas. Se já transou: é o cara… Me diz, porque aos garotos é cobrado iniciar a vida sexual o quanto antes, enquanto as garotas é exigida a castidade? No mínimo, isso não me parece ser nada justo.

 

— De fato não é. Mas porque se importa com isso?

 

— Só porque não sou mulher, não deveria me preocupar com o que é justo ou injusto a elas? – ele me encarou com a sobrancelha levantada – Pensei que buscassem igualdade. Mas se já julgam ou excluem um homem por ele ser homem, não acha que já se começa errado?

 

— Bom… Talvez…

 

    Ele abriu a bomboniere e pegou mais um doce, de abóbora agora. Ele parece que não se controla quando está nervoso, pois já comeu vários doces.

 

— Não queria ser intrometida, mas… – engoli em seco – Parece que sua “primeira vez” não foi tão agradável.

 

    Ele riu.

 

— É comum acharem que o simples fato de fazer sexo é prazeroso para os homens. Mas sinto em dizer que, assim como as mulheres, também precisamos de estímulo, nos cansamos, podemos nos machucar e ser abusados nesse momento tão frágil para ambos. – ele explicava como se tivesse dando uma aula – É que normalmente os babacas “machões”, não querem admitir esse tipo de coisa, muito menos que foram usados por uma mulher. – ele riu novamente – O que é idiotice.

 

— Você foi abusado? – perguntei chocada.

 

— Por sorte. Não. Mas conheço quem já foi…

 

— Credo!

 

— Sem falar que, ser o “garoto bonito” da escola, aquele com quem toda garota quer ficar, também não ajuda. Pois todas que dão encima de ti, não gostam realmente de você, mas de sua aparência e fama. Há quem goste desse tipo de atenção…

 

— Não era seu caso pelo visto…

 

— Parece óbvio né? Mas não era bem assim para o povo com quem eu convivi na escola. E os rapazes me incomodavam muito, já que eles perdiam garotas por minha causa… – lamentava ele com um estranho sorriso triste – Eu definitivamente devia ter ignorado esse povo e ter ouvido minha mãe.

 

— Você teve “aquela conversa” com sua mãe?

 

— E por que não? – ele me encarou se divertindo com minha surpresa – Ela é mulher. Eu pretendia ficar com uma mulher. Porque não ver o ponto de vista delas? E antes que pergunte: sim, também conversei com meu pai. Mas a conversa com minha mãe foi a mais elucidativa.

 

— Porque? – não consegui conter a pergunta.

 

— Minha mãe se enquadra no grupo das “meninas que se importavam com a própria castidade”. Ela teve muitos péssimos exemplos, sabe. Amigas e até parentes que engravidaram cedo, tiveram que ser mãe solteira e desandaram a vida de alguma forma…

 

— Também conheci gente assim.

 

— Pois é. Inclusive, é ridículo o fato que nessas situações, a maior, senão única, penalizada seja a mulher. – ele fechou a cara com desgosto – De todo modo, não que minha mãe julgasse essas garotas pelo fato de terem cometido o único erro de abdicar cedo da virgindade, mas por elas terem tomado uma série de decisões erradas, onde essa era apenas mais uma delas. E ela aprendeu com isso. A começar por: se é para ficar com alguém, que fosse com um Homem que sabe o que quer, e não um Garoto que só estivesse curtindo a vida.

 

— Nossa! Isso até faz sentido.

 

— E a lição mais importante: a vida é sua! Faça o que VOCÊ ACREDITA ser certo, e não o que os outros DIZEM ou ACHAM ser o certo. Eles podem estar errado e você não pode culpá-los por ouvi-los, pois no fim, a escolha e as consequências dela, são apenas suas.

 

— Nossa!

 

— Profundo não? – disse ele tentando abrir um tímido sorriso – Queria tê-la ouvido e não ter dado trela aos babacas da escola, mas…

 

— Seria pedir demais perguntar o que houve?

 

— Não foi nada demais. Só não queria que minha primeira experiência tivesse sido desconfortável. E tanto menos que a garota me exibisse como um troféu. – ele bufou chateado.

 

— Sério?

 

— Isso talvez não aconteça no seu círculo de amigas, mas não apenas os homens são babacas nesse ponto. Tem bastante mulher que é tão babaca quanto, mas ninguém dá bola, pois aos olhos da sociedade em que vivemos, isso só é babaquice se for um homem expondo uma mulher, não o contrário. – ele me encarou sério – E isso só acontece porque os homens acham que são mais fortes. Só que não somos, tanto menos as mulheres são frágeis, mas com toda certeza, AMBOS são idiotas.

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A ENTREVISTA | CAPÍTULO 4

CAPÍTULO 4

    A entrevista rolava como um bate-papo entre amigo. O que eu não esperava nenhum um pouco. Mas Jean era uma pessoa muito sociável, mais do que os relatos de outras matérias davam a entender. Talvez isso tenha sido proposital, afinal, se você é o dono de um conglomerado enorme como era o Artigianale, certamente que você buscaria transmitir uma imagem sólida e confiante, mas por trás daquilo tudo, batia o coração de alguém que preza pela família.

 

    E foi assim que todo aquele império começou: com o sonho do pai de Jean, que idealizou tudo antes mesmo dele nascer, já com a intenção de transformar a pequena sorveteria de uma cidadezinha do subúrbio, em uma grande franquia capaz de comprar suas concorrentes. Criado desde pequeno para dar continuidade ao negócio da família, ele cresceu dentro da sorveteria. O que queria dizer que ele não era um mero engravatado atrás de uma mesa, se precisasse, ele arregaçava as mangas e colocava a mão na massa.

 

    O que por si só já era algo incrível.

 

    Sua mãe era uma artista, e graças a ela que tudo aquilo foi possível, pois no início, era os ganhos dela que sustentavam a pequena lojinha, até que esta passou a se sustentar e não depender do trabalho da mãe de Jean, que nunca deixou de ajudar como podia.

 

    Pelo que disse, como era sempre cobrado por seu pai a eficiência, Jean sempre fora um aluno exemplar e tudo mais. Não fumava, nem bebia… Era um cara… Legal?

 

— Pela cara que faz, suponho que tenha imaginado que eu era como esses CEO babacas de romances eróticos. Não? – disse ele rindo.

 

    Eu tentei achar graça, mas de certa forma, foi o que pensei, não? Se bem que essa pode ser mais uma jogada, para esconder esse lado dele.

 

— Bom. Se está sugerindo isso, creio que sabe que você tem pinta desse tipo de cara.

 

— É eu sei. – constatou ele rindo ainda mais – É até difícil sair na ruas às vezes…

 

— O que sua namorada diz sobre isso? – testei jogar uma verde.

 

— Não tenho namorada.

 

— Só pode tá brincando? – indaguei incrédula.

 

— Só porque tenho cara de galanteador, não significa que eu seja um. – disse ele um pouco mais sério, mas sem perder o sorriso.

 

— É difícil acreditar. – será que ele estava tentando me despistar para eu achar que ele tá acessível? – Mas é sério mesmo? Nenhuma namorada, peguete ou ficante?

 

    Ele fechou a cara e ficou bem sério. E aquilo me deixou com um certo receio.

 

— É tão decepcionante ver uma mulher machista… – disse ele com tom de desânimo.

 

— Eu? Machista? – e essa agora!?

 

— É bem verdade que nossa sociedade por si só já é machista, e muito provavelmente você o seja sem saber, por pura osmose. Mas só por que sou bonito, rico e esteja sendo educado com você, não significa que eu seja um garanhão, tanto mesmo que eu esteja flertando para te levar pra cama. – constatou ele me encarando com desapontamento.

 

    Eu fiquei chocada! Nem consegui falar nada… Ele realmente estava falando sério? Será que ele é gay?

 

— E eu não sou gay. – respondeu ele rispidamente.

 

    Ele tá lendo minha mente?

 

    Por um instante ficamos em silêncio, pois eu não sabia o que dizer. Mas pensando bem, se ele não estava me cantando, então…

 

— Porque então assoprou meu pescoço lá fora? – perguntei sem jeito.

 

— Tinha uma abelha no seu cabelo. – respondeu ele ainda sério – Você provavelmente passou pela sorveteria antes de vir para cá. É comum elas aparecerem por lá. Não queria correr o risco de que você fosse ferroada, tanto menos que matasse a pobrezinha. Logo…

 

— Tá mais e o lance de me morder se eu quisesse?

 

— Tudo o que todos dizem tem que ter uma conotação sexual? – resmungou ele cruzando os braços – Vejo que vem erotizando nossa conversa há algum tempo. Se fosse eu fazendo isso, você gostaria?

 

— Não, mas…

 

— Só porque outros homens são uns pervertidos, não significa que todos sejam. E só porque um homem não age dessa forma com uma mulher, não significa que ele seja homossexual. – disse ele mal humorado – Eu apenas as respeito como tanto pedem que seja feito. Mas se sou respeitoso, sou gay. Se ofereço ajuda para a carregar sacolas de compra, sou machista, se fico na minha, sou sem noção… Sabe. Desse jeito é difícil! – complementou ele como se estivesse cansado de dizer aquilo.

 

    Gente! Estou chocada! Eu realmente o entendi mal, e ele estava ofendido.

 

    Quer dizer, ele ainda podia estar fingindo só para me amolecer, mas da forma como ele dizia, ou ele estava falando sério, ou ele era um excelente mentiroso.

 

— Me perdoe Jean, mas é que… – o que dizer? – É que é tão mais comum…

 

— Eu lhe avisei que não sou comum. – ele cortou minha fala.

 

    De fato, ele havia dito isso.

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A ENTREVISTA | CAPÍTULO 3

CAPÍTULO 3

    Apesar de toda “ostentação” externa, no mobiliário e condições de trabalho dos funcionários que eu vi até aquele momento, por algum motivo, o escritório dele era bem humilde.

 

    Confesso que esperava uma enorme mesa de algum material mega caro, estantes com prêmios e certificados, um bar ou um frigobar, além de alguma outra coisa extravagante, mas, acredite se quiser, naquele escritório havia apenas uma mesa executiva, duas cadeira de um lado e uma do outro, além de um armário de arquivos. E só!

 

    A única ostentação mesmo era no tampo da mesa, que era de mármore, mas nem era dos mais extravagantes, então nem deve ter sido caro.

 

    Tenho que admitir que isso me surpreendeu.

 

— Por onde deseja começar senhorita?

 

    Fiquei muda por um tempo.

 

    Eu não havia pensado em como começar a entrevista, de forma a fazê-lo falar de sua vida pessoal sem notar. Tanto menos queria dizer a ele que estava ali para expor sua vida nas colunas sociais.

 

    Mas pensando bem… Quando a matéria for para o jornal, ela estará assinada com meu nome. Meio que ele ficará sabendo de tudo no fim… Ai céus!

 

— Bom. – se adiantou ao me ver ainda muda – Levando em conta que sobre o lado profissional, já é divulgado em várias revistas, suspeito que tenha vindo para descobrir algo que não saibam… Estou correto?

 

    Tentei disfarçar minha surpresa ao encará-lo, mas aquele olhar tranquilo que parecia oculta uma astúcia sem igual, não me permitiu ser eficiente em minha tentativa.

 

— Não queria que eu soubesse disso, não é?

 

— Bom… – tentei novamente falar algo, mas eu estava sem jeito.

 

— Não se preocupe senhorita Martins. Eu não mordo. – disse ele rindo – A menos que queira… – essa última parte foi sussurrada e acompanhada por um sorriso de canto.

 

    Céus! Ele está me cantando ou não?

 

    Hora ele parece profissional, hora não. Além de ter aquele olhar de alguém que sabe de algo, mas não vai me contar amenos que eu esteja perto da resposta… Como num jogo…

 

    É isso! Ele está jogando. E eu como bela trouxa que sou, estou caindo na dele!

 

    Ah! Mas nesse jogo, jogam dois!

 

— Tenho que admitir que não pretendia ir direto ao ponto. – disse me ajeitando na cadeira, para poder encará-lo à altura – Mas sim. Me mandaram para extrair de ti algo que mais ninguém saiba…

 

— Algo íntimo, suponho? – disse ele se arqueando sobre a mesa para ficar mais próximo de mim, sorrindo logo em seguida.

 

    Merda! Eu ia fazer isso! Qualé a desse cara?

 

    Melhor não jogar com ele. Tá na cara que vou sair perdendo… Provavelmente minhas roupas…

 

    Terei de cortar essa postura dele. Sou uma jornalista, não uma fofoqueira, muito menos uma va… Arhg!

 

— Se desejar falar de sua intimidade, esteja a vontade. Mas eu sou uma profissional senhor Renard…

 

— Pode me chamar de Jean. – ele me interrompeu, voltando a encostar as costas na cadeira.

 

    Maldito!

 

— Como eu ia dizendo Senhor Renard…

 

— É sério, senhorita Martins. Me chame de Jean. Nem meus funcionários me chamam de “Senhor Renard”. Apenas quando temos visitas externas. Preso por um clima mais familiar em minha empresa, mas sei que formalidade espelha a seriedade de meu negócio. No entanto, o evito quando não é necessário.

 

— Então, não acha que essa entrevista precise de formalidades? – questionei arqueando uma sobrancelha.

 

— Creio que não, senhorita Martins.

 

— Então, porque continua me chamando de “senhorita Martins”?

 

— Você não me deu permissão de usar seu nome. Não serei petulante em presumir que eu tenha a liberdade de não ser formal contigo, só porque não desejo que seja formal comigo.

 

    Por essa eu não esperava.

 

    Ou será que é mais uma jogada? Será que estou exagerando em achar que ele está jogando comigo, tentando me seduzir?

 

    Nesse instante ele abriu uma gaveta da mesa e retirou de lá uma bomboniere cheia de doces artesanais.

 

— Deseja beber algo? Água talvez? – ele perguntou se servindo de um doce de banana – Servida? – disse ao me oferecer os doces.

 

— Aceito apenas a água. – disse meio sem jeito – Pode me chamar de Eliz. – enfim cedi.

 

— É um nome bonito. – disse ele com um ar satisfeito – Você é xará de uma excelente cantora.

 

— Gosta desse tipo de música? – não consegui conter a pergunta, afinal, sou filha de um musicista.

 

— Em termos musicais, posso dizer que sou eclético, pois cada momento há uma música que se encaixe. Mas, devido a influência de meus pais, posso dizer que o rock clássico é meu gênero predileto. – ele me encarou confuso por um instante – Não vai anotar ou ligar o gravador?

 

— Como?

 

— Já começamos a entrevista, não? – ele disse rindo da minha cara de tacho.

 

— Oh! Sim

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A ENTREVISTA | CAPÍTULO 2

CAPÍTULO 2

    E aqui estou eu, Eliz Martins, formada em jornalismo, com vários cursos e concursos em uma impecável graduação, na sede da Artigianale S.A., sentada na ante-sala, aguardando ser atendida pelo tão requisitado “Senhor Renard”… Ai, saco!

 

    O lugar é lindo, a organização dos funcionários é exemplar, a decoração do ambiente é impecável… Alguém tem fixação por organização. Será que ele tem TOC?

 

— Sério que estou reparando nisso? – resmunguei enquanto rabiscava em um bloquinho de notas em minha mão.

 

— Reparando no “Que”, senhorita Martins?

 

    Ao ouvir aquela voz, imediatamente me arrependi de estar ali distraída. Sem que eu notasse, ninguém menos que o próprio Jean Renard havia aberto a porta do escritório e se aproximado de mim, para me chamar para entrar. E tenho que fazer uma observação:

 

    ELE É UM GATO!

 

    É incrível como as fotos nas revistas de economia não lhe fazem jus. Ele deve ter mais de um metro e oitenta, só pode! Seus cabelos são de um tom negro reluzente e muito bem penteados, apesar de um pouco rebeldes. A pele clara faz os olhos se destacarem, pois são castanhos e cristalinos. O corpo… Ai, céus! Mesmo com o terno, da pra notar que ele não é nenhum pouco sedentário e deve ter aquele clássico “tanquinho” que faz a mulherada arfa. Mas vou ser honesta, são os lábios a real tentação nesse homem… Nunca vi lábios tão bem desenhados, carnudos e sedutores, que dão uma terrível vontade de beijar…

 

    Meu Deus! No que eu tô pensando???

 

— Senhorita? – repetiu ele ao reparar que eu não responderia se ele não me tirasse daquele estado de choque em que me colocou… Sim! A culpa é dele! Quem mandou ser tão gos… Ahh!

 

— Perdão! Eu estava admirando sua beleza… Quer dizer… Sua empresa… – e lá se vai o profissionalismo…

 

    Ele arqueou uma das sobrancelhas e me encarou com um estranho olhar curioso… Caramba! Isso o deixou mais lindo! Como é possível?

 

— E a que conclusão chegou? – perguntou ele sussurrando, com o rosto bem próximo ao meu.

 

    Controle! Mantenha a calma Eliz. Não pule em cima dele!

 

    Engoli em seco.

 

— Que preza pela organização e eficiência. – disse finalmente, comemorando por não ter dito merda – Eventualmente me questionei se não seria um sinal de que teria TOC.

 

    Ele deu uma curta risada.

 

    Será que ele tem noção do quanto é gato e sedutor? Deve ter, não é possível que não esteja fazendo isso de propósito.

 

    Ele estreitou os olhos e me encarou com um sorriso de canto divertido.

    Será que eu sobrevivo a essa maldita entrevista?

 

— Só porque prezo pela organização, é sinal de que possuo algum transtorno mental?

 

— De forma alguma! – respondi sem jeito, aproveitando a oportunidade para parar de olhar para ele – Apenas é o mais comum de se ver.

 

    Ele se aproximou ainda mais, ficando com a boca ao pé do meu ouvido, como se fosse contar um segredo.

 

— Vai perceber que não sou nenhum pouco comum… – sussurrou – Lhe aguardo em meu escritório. – ele então soprou em meu pescoço de uma forma que me arrepiou por completo.

 

    O que raios foi aquilo!

 

    Certeza que ele fez de propósito! Não é possível que tenha sido por acaso. Ele certamente é daquele tipo que leva todas pra cama, sem sombra de dúvida!

 

    Eliz! Se você tem apreço por sua reputação, fique longe desse galanteador!

 

    Ele retornou para o escritório e deixou a porta aberta para que eu entrasse.

Definitivamente eu não devia entrar. Ele certamente vai jogar aquele charme pra cima de mim e me levar pra dormir com ele, e do jeito que to na seca, é bem provável que eu aceite…

 

    Não mulher! Seja forte! Você é uma profissional! Não o deixe te dominar!

 

— Senhorita Martins? Tenho um compromisso daqui duas horas. Se continuar ai parada, talvez não consiga concluir sua entrevista. – disse ele apoiado no portal de sua sala, me encarando de braços cruzados, com a maior serenidade do mundo.

 

    Eu to perdida!

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A ENTREVISTA | CAPÍTULO 1

CAPÍTULO 1

“”Jean Renard Rocha, CEO de uma das principais redes de bistrôs, torterias e bookcafés já criados neste país, sendo a Artigianale, a mais importante das franquias, por arrecadar sozinha cerca de 50% dos lucros do conglomerado, com sua série de icecafés refinados, preparados com um espaço para eventos, galerias de arte, além da qualidade de seus produtos autênticos e naturais.

No entanto, de onde veio esse rapaz, que com apenas 33 anos, já se equipara a grandes empresários, que só atingiram o sucesso após anos no mercado…””

— Aaa… Não sei se estou indo bem… O que acha Laís? – reclamo estendendo a folha que eu rascunhei para minha colega de mesa.

 

    Ser redatora e jornalista de um veículo impresso, não tem sido muito fácil na atualidade. Pra piorar, junto com as baixas vendas, vem as demissões e economia de espaço. Agora, o que antes eu fazia em uma mesa toda para mim, tenho que dividir com Lais. O que não é tão ruim por um lado, pois ela ao menos é organizada, discreta e ajuda bastante com suas avaliações de meus rascunhos, mas eu… Bom… Digamos que organizada é uma palavra muito forte.

 

    Como eu disse, trabalhar ao lado da Laís não é tão ruim, se não fosse por ela se meter na minha vida como se fosse minha mãe.

 

    O que importa se não me maqueio, se me visto como se fosse uma senhora, ou se não uso brincos?

 

   Eu uso brincos, sei me maquiar… Só é pouco prático me preocupar com isso todo dia, se no fim das contas vou ter que me livrar de tudo isso quando eu for dormir. É perda de tempo.

 

  E quanto às roupas: eu prezo pelo meu conforto, ora bolas.

 

“Ah! Mas se continuar assim você será uma eterna solteirona…”

 

    Bah! Como se eu fosse querer viver com um cara que só me acha bonita quando estou produzida… Aff!

 

    Não sou mais a tolinha de dezesseis anos que sonhava em viver um romance digno dos livros que já li na vida. Amor à primeira vista, príncipe encantado, alma gêmea, destinos cruzados, cara gostoso bom de cama que só deseja a mesma mulher… Nah! Isso não existe! Sinto muito,mas essa é a realidade.

 

    Todo homem é igual e ponto final. Vão te querer até se cansar, achar algo melhor, depois: tchau!

 

    Ah!!!! Eu e meu péssimo hábito de perder o foco…

 

— Isso não parece um texto para a coluna de fofocas… – questionou Laís analisando meus garranchos com aquele oclinhos finos e cheios de charme que ela sempre usava.

 

— Acredito que seu eu fizer algo mais profissional, talvez passem a matéria para a coluna de economia. É melhor que ficar no meio dos ti ti tis da vida alheia…

 

    E de fato, para quem escrevia sobre empreendedorismo, arte, ecologia e sustentabilidade, ir parar na coluna de fofocas, era meio que uma regressão.

 

— Mas o que você sabe sobre esse tal Jean, que valha um espaço na coluna de economia? – Laís me encarava com a sobrancelha arqueada, por cima do papel que estava a sua frente – Pelo que eu saiba, tudo o que tem para se saber sobre ele nesse espectro, várias revista de empreendedorismo já publicaram. O João quer algo que ninguém sabe. E ninguém sabe sobre a vida pessoal dele…

 

— E por isso, EU, vou ter que virar uma paparatiz mexeriqueira?

 

— Eu sei… Isso é…

 

— Revoltante?

 

— Na verdade eu ia dizer intrusivo. MAS, isso não vai mudar o fato que você vai ter que ir entrevistar esse moço…

 

— Entrevistar é o de menos. – constatei me afundando de vez em minha cadeira – O problema é fazer um cara desses falar de sua vida íntima para uma jornalista que pretende publicar tudo, por mais que na verdade eu não queria… – murmurei ao esconder meu rosto em minhas mãos.

 

— Eliz… Pra que tanto drama? – disse Laís massageando meus ombros ao ver meu stress – Não deve ser tão terrível. Bob e Cida faziam isso com tanta facilidade.

 

— Bob e Cida são fofoqueiros natos! E Bob ainda é blogueiro… Eu não entendi porque o chefinho escolheu logo eu para isso. Até você se daria melhor.

 

— Liz, Liz… Sabe que estamos com pouco pessoal. Bob de férias, Cida em licença maternidade… Mas pense: o cara não gosta de falar de sua vida pessoal para a imprensa. Acha mesmo que ele receberia um jornalista que normalmente só publica nas colunas sociais?

 

    Pensando dessa forma, até que Laís tem razão. Mas eu não iria admitir que eu era pessoa certa para aquela tarefa.

 

    Não mesmo.

 

— Laís… Por favor. – suplique tentando fazer uma carinha de cãozinho pidão – Por favorzinho…! Convença seu pai a colocar outra pessoa.

 

— Fora de cogitação darling… Senhor João está irredutível ultimamente. – disse ela fazendo um careta de quem chupou limão azedo – Até as contas com os anunciantes estabilizarem o caixa, ele não vai melhorar esse humor.

 

— Sei…

 

    Enquanto isso, eu é que pago o sapo.

 

    C’est la vie

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