ATRÁS DE UM BEIJO | CAPÍTULO 7

CAPÍTULO 7

Eidan era um festeiro invicto e certamente estaria naquela boate durante o carnaval. Porém, o condenado era podre de rico e só frequentava as áreas VIPs cheias de luxo, tornando o acesso a ele um pouco limitado. Não que Guerrard precisasse realmente de Lúcia, mas o elo que tinha com ela seria útil naquela noite. Então, porque não usar?

O plano era simples: Lúcia entra, é levada para área VIP, ele a segue até lá, encontra Eidan, pega a alma dele, e fim!

Mas simples que isso impossível.

Mas Guerrard não contava com o próprio ciúme, coisa que Victor já havia lhe alertado. O lance de ser uma noite onde as mulheres não pagavam, era a forma que a casa noturna tinha para chamar mais do público masculino pagante, que tentaria sair do lugar com pelo menos uma noite bem dormida, e ele estava colocando Lúcia como uma opção… Só de pensar nisso, Guerrard tinha vontade de se espancar.

Por sorte, ou qualquer outra coisa, Lúcia não gostava daquele tipo de ambiente. Logo, mesmo que ele não ordenasse, ela repeliria qualquer um que estivesse ali. Principalmente se fosse um otário qualquer que quisesse apenas se aproveitar do corpo dela.

E que corpo…

Que ela tinha um belo corpo, Guerrard já tinha notado desde aquela noite no beco, mas só agora ele começou a reparar em outras coisas como o formato delicado dos lábios dela, ou em como ela ficava quente com a aproximação dele e perdia o ritmo da respiração quando ele sussurrava no ouvido dela. Isso sem contar o cheiro quase hipnotizantes que ela tinha… Como não tinha reparado nisso antes? Ou tinha reparado, mas ignorou esse tempo todo? Uma coisa era fato! Depois que decidiu ficar provocando-a para vê-la ficar com receio da própria excitação, tem sido cada vez mais difícil ignorar esses detalhes que, Guerrard gostando ou não, o excitava também.

Observar de longe os paspalhos do lugar darem em cima de Lúcia era irritante, mesmo ela se livrando facilmente de todos, mas receber uma espécie de “sermão” de Omaon, foi a gota d’água para sua paciência, embora Guerrard tenha conseguido surpreendentemente manter o controle. Porém a ladainha do General demoníaco fez com que ele perdesse seu foco e parasse de prestar atenção em Lúcia, que já não estava mais onde ele a havia deixado, fazendo-o suspeitar que ela já havia sido levada, e por isso precisava ser rápido para encontrá-la.

Alto… Cheiro de água com cloro… Vista do céu sem estrelas…

Uma cobertura?

Foi então que ele viu um conjunto de bangalôs com cortinas os fechando.

Lúcia estava sentada em um divã, que tinha dentro do bangalô em que estava. Ela não tinha a menor ideia do que aconteceria a seguir, mas tinha certeza que coisa boa não sairia dali. Estava nervosa, querendo que Guerrard aparecesse logo.

Ela se sentia segura com ele?

— Curioso… Você sentindo minha falta. – murmurou o demônio levemente surpreso com aquilo.

— Onde esteve? Pensei que queria ir para a outra sala. – perguntou Lúcia nervosa – Porque deixou que o segurança me trouxesse até aqui? 

Maldito Omaon!

— Probleminhas no caminho. – resmungou ele irritado – Mas eu lá sabia que o cara ia trazê-la pra cá? – complementou passando a analisar o lugar – Nem sabia que tinham esse canto aqui… Se eu soubesse que dava pra entrar pelo terraço, acha que eu ia pedir sua ajuda?

— Acho. – respondeu Lúcia fechando a cara. – Não precisava de mim para levar Tom e Mercedes, e ainda sim me usou.

Ela estava certa… Mas Guerrard optou por não dizer mais nada, antes que dissesse algo da qual se arrependesse. Ao invés disso, ele se focou em procurar por Eidan e acabar logo com aquilo.

— Está me ignorando?

— Não… Aquele ali, ô. – ele apontou para um cara de camisa verde no bar – É ele quem vim buscar. Porque não o atrai até aqui e baixe as cortinas. Fácil, rápido, e você vai poder voltar pra casa cedo.

Lúcia ficou com medo ao sentir o tom sem consideração de Guerrard. Pela primeira vez ele teve certeza que não gostou de sentir aquele medo nela, e isso o incomodou, mas, o fato dela se preocupar com os outros mais do que consigo mesma, o deixava muito mais intrigado.

— Nunca vou entender porque se importa tanto com a vida alheia e ignora a própria. – ele a encarava.

— Você é um demônio. – disse Lúcia desviando o olhar – Nunca vai entender muita coisa…

Ela estava certa mais uma vez. Mas porque ele se sentia afetado por aquelas palavras?

— A propósito. O nome dele é Cândido, ou algo assim? – perguntou ela olhando estranho para algo à sua frente.

— Não.

— Então, acho que aquele ali é o cara que pediu para que o segurança me trouxesse para cá. – ela apontou na direção que olhava.

— Como?! – Guerrard não entendeu o que a moça queria dizer.

Se aproximando do bangalô onde estavam, vinha um homem alto de cabelo loiro com um corte da moda, vestindo uma camisa social laranja e calça jeans. Ele carregava duas taças de espumante, e assim que ele chegou bem perto, Guerrard pode sentir um cheiro estranho vindo de uma das taças.

Ao reconhecer o cheiro de uma substância atípica, Guerrard se esforçou para não pular sobre o homem a sua frente, pois se o fizesse, estragaria todo seu plano e correria o risco de machucar Lúcia. E era exatamente pelo bem dela que ele estava furioso com aquele humano imundo a sua frente, que o encarava de cara amarrada.

— Posso saber o que o senhor está fazendo em meu acento? – disse o loiro.

— Posso saber o que quer com minha garota? – respondeu Guerrard imediatamente.

— Que?! – exclamou Lúcia, mas ela foi completamente ignorada pelos dois homens.

— Pensei que ela estivesse desacompanhada? – o tal Cândido arqueava as sobrancelhas tentando entender a situação.

— E ela está. Mas nem por isso deixa de ser minha. – disse Guerrard se esforçando para não rosnar.

— Ah! Entendi… Você é um ex-ciumento. – concluiu o homem olhando para Lúcia.

Ciúmes… De novo aquela palavra…

Que seja!

— Resolvo isso num instante… Segurança! – gritou o loiro.

Dois seguranças enormes apareceram rapidamente. Por um segundo Guerrard parou para realmente analisar a situação. Ele tinha que parar de ser passional e ser mais racional, se queria sair dali com Lúcia ilesa. Rapidamente ele olhou novamente na direção de Eidan e viu o homem se dirigir ao banheiro.

Ótimo!

— Ok, ok. Tô indo.

Guerrard se levantou e pego a taça de espumante, que continha a substância estranha, da mão do loiro. Ele desviou dos seguranças e seguiu para o outro lado da piscina, bebendo o conteúdo da taça e a jogando num arbusto logo em seguida.

Fulnitrazepam…

Ele tinha razão em desejar trucidar aquele canalha que estava com Lúcia. Precisava ser rápido para tira-la dali o quanto antes.

Humanos não prestam.

Ao chegar no banheiro, não foi muito difícil encontrar Einda, afinal, uma vez pervertido nojento, sempre pervertido nojento.

Humanos definitivamente não prestam.

O som de gemidos femininos estavam abafados dentro do box mais afastado da porta, mas o som era ouvido normalmente pelo demônio, que andou rapidamente até a porta e a abriu com um chute, fazendo aqueles que se encontravam ali saltassem pelo susto.

— Mas que merd… – começou a gritar Eidan, mas foi subitamente interrompido por uma mão apertando sua garganta e elevando seu corpo.

Aos pés dele, uma mulher assustada se encolhia no canto da privada, tapando a boca para conter um grito.

— Saia daqui. – Guerrard rosnou para ela.

Rapidamente ela recolheu suas coisas jogadas no chão e partiu logo em seguida, deixando a porta do banheiro bater com um ruidoso estrondo.

— Tenho uma boa e uma má notícia para você… – disse Guerrard encarando com nojo o homem que estrangulava – A má notícia é de que você vai morrer hoje… A boa é que será uma morte rápida, pois estou com pressa.

E da mesma forma que foi com Mercedes, rapidamente o demônio retirou e consumiu a alma de Eidan, resultando em um corpo inerte e sem vida no chão.

Estava feito! Agora era só esconder seus rastros…

Mas antes que pudesse fazer algo, Guerrard sentiu uma estranha sensação de desconforto diferente. Era como uma tontura seguida de uma agulhada na espinha. Imediatamente ele identificou que aquela sensação estava relacionada a Lúcia, e que ela estava em perigo. Instantaneamente ele se viu diante do loiro nojento se debruçando sobre Lúcia e levantando a mão para esbofeteá-la, mas antes que ele concluísse o movimento, Guerrard o deteve.

— Larga. Ela. AGORA! – grunhiu Guerrard exalando ódio – Se ainda deseja ter uma mão para se consolar mais tarde.

— Segurança! – gritou o homem tentando reagir ao demônio, mas sem sucesso.

No impulso de fúria, Guerrard arremessou o loiro em direção à piscina. No movimento, a cortina e alguns móveis que estavam no meio do caminho também foram arremessados. Um ódio assassino tomava forma dentro do demônio e começava se externar. Ele não conseguia mais se conter. Precisava acabar com aquele canalha imundo. Na verdade, todos ali mereciam ser destruídos, assim como Eidan também mereceu seu fim. Eram todos humanos imundos, corruptos e pervertidos.

Escória descartável!

— Para! – Lúcia se forçou a gritar.

Mas a voz dela saiu muito baixa, e aparentemente ninguém, além de Guerrard que a ignorou, a ouviu gritar.

— Para, por favor! – suplicou ela ofegante.

Mais uma vez aquele jeito mártir de ser. Não seria ela, se não se importasse com o bem estar dos outros. Mas a raiva de Guerrard era tão grande naquele momento, que ele não queria pensar na benevolência dela.

— Você é realmente idiota em proteger esse lixo, que não está nem aí pra você.

A voz de Guerrard estava começando a ficar gutural. Lúcia tentou impedir seu avanço, mas ele estava impassíveis. Ela então, numa tentativa arriscada, estendeu suas mãos para segurar o rosto de Guerrard e puxá-lo para mais próximo do seu e então o beijou.

O que!?

Guerrard não esperava por aquela ação vindo de Lúcia, principalmente naquele momento, mas bastou ela encostar os próprios lábios aos dele, que uma aprazível descarga elétrica se espalhou por seu corpo, relaxando os músculos, acalmando os nervos.

Parecia que o mundo tinha parado e apenas sentir o toque daqueles lábios macios, o calor daquele hálito, a eletricidade daquele contato, só aquilo parecia importar naquele instante. Teria sido prazeroso ficar eternamente daquela forma, mas pouco tempo depois, bem no instante em que Guerrard pensou em agarrá-la em seus braços para ela não sumir, Lúcia se afastou para encará-lo nos olhos, o deixando sem reação mais uma vez. Além de um sabor de “quero mais”, na boca.

— Te dei o que queria. Agora deixe essa gente em paz.

Como? Ela fez isso, por eles?

— Está negociando comigo? – perguntou Guerrard ainda confuso e desnorteado.

— Isso não é uma negociação. Vamos embora daqui.

Ela então o puxou pelo braço, seguindo em direção à saída.

— Sabe que acabou de queimar a moeda de troca que tinha para que eu lhe removesse a marc…

— Foda-se!

Ela disse “Foda-se”? O que houve com ela? O que há de errado? O que está acontecendo?

Guerrard estava totalmente sem rumo, pois foi pego totalmente desprevenido por aquele beijo e o desejo de ele despertou, junto da paz incomum que o preencheu, fazendo sua raiva se tornasse apenas um sentimento distante e inútil.

Ele olhava a mão dela segurando e puxando a dele, e por uma fração de segundos, imaginou colocando-a contra a parede e beijando-a novamente. Mas ela não havia concedido um beijo, ela havia o beijado por vontade própria e isso não era o mesmo que uma permissão. E se quisesse beijá-la novamente, precisava daquela maldita permissão.

Determinado, Guerrard decidiu que faria Lúcia permiti-lo de beijá-la, não importasse o que ele precisasse conceder a ela. Ele iria beijá-la novamente, nem que fosse por uma última vez. Mas ele mal sabia o que os esperava na saída do terraço, e aquilo mudaria todo e qualquer plano que qualquer um dos dois fizesse para o futuro.

 

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ATRÁS DE UM BEIJO | CAPÍTULO 6

CAPÍTULO 6

Por incrível que pudesse parecer, a noite chegou ligeira, e antes que Guerrard pudesse se irritar com o tédio da espera, Lúcia já estava no lugar marcado. E nem eram oito horas.

— Hmmm! Chegando adiantada… – comentou Guerrard analisando o que Lúcia vestia.

Era o vestido que ela havia usado no aniversário dela. A primeira vez que se viram após selarem o pacto e única ocasião onde realmente foi capaz de tocá-la sem nenhuma restrição. A primeira vez que experimentou tocar aquele corpo delicado e macio…

— Eu me lembro desse vestido. – murmurou ele ainda mergulhado nas lembranças – Seus seios parecem mais macios ao toque quando usa ele…

Lúcia ficou vermelha de vergonha com o comentário do demônio, e tinha algo de agradável em vê-la corar daquela forma. Se lembrar que ele a havia agarrado por trás, segurando-a com a mão cheia sobre um de seus seios, a excitava, mas ela lutava contra aquilo, no entanto, ela ficava linda com aquele olhar acanhado que tentava esconder a própria excitação, e isso só deixava Guerrard com mais vontade fazê-la reagir daquela forma.

— Você também lembra, né?! – disse Guerrard em um tom suave enquanto segurava o queixo de Lúcia, forçando-a a olhar em seus olhos – Admita que isso a excita…

— Mas nem morta! – respondeu ela o encarando de volta.

Mas aquilo era mentira. Ela estava excitada mesmo desejando não sentir aquilo. E vinha se excitando com mais frequência do que pretendia, mas era estranho como não havia notado aquilo antes…

Quer dizer…

Guerrard sentiu algo similar vindo dela no dia em que a levou para o convento de moto. Ele apenas ignorou na esmagadora maior parte do tempo, mas aquela reação esteve ali, entre eles.

— Nah! Eu sei quando está mentindo… – ele soltou o queixo de Lúcia e se dirigiu para o prédio do outro lado da rua – E isso é muito feio da sua parte.

Quanto mais o Guerrard falava, mais vergonha a moça sentia. E isso estava começando a deixá-lo excitado, logo, ele decidiu seguir o mais rápido possível com a tarefa, antes que Lúcia percebesse que a situação dele não era tão diferente da dela.

— Hoje é noite das garotas… Você pode entrar sem pagar pegando aquela fila ali.

Ele indicou uma pequena fila à esquerda do prédio, onde tinham apenas mulheres. O prédio parecia ser uma espécie de casa noturna luxuosa.

— Te encontro lá dentro.

— Mas…

Antes que ela conseguisse falar qualquer coisa, Guerrard já havia sumido da vista dela, dando a entender que havia partido, mas na verdade ele ainda estava ali, a observando através da Umbra.

Guerrard estava basicamente hipnotizado pela beleza de Lúcia. Analisar cada detalhe do corpo da jovem imaculada estava começando a se sobressair a qualquer outra atitude que ele realmente deveria executar, mas ao parar sua visão no lenço que estava no pescoço dela encobrindo um hematoma, o demônio despertou de seu devaneio.

Ele a havia machucado…

Aquilo… Aquele lenço estava ali para esconder uma marca que ele havia colocado nela acidentalmente…

E diferente da outra, essa marca ele queria remover, mas não era capaz de fazê-lo.

 

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ATRÁS DE UM BEIJO | CAPÍTULO 5

CAPÍTULO 5

Uma semana havia se passado desde que Guerrard tomou a decisão de deixar Lúcia em paz, mas estava sendo difícil ficar distante. Ele queria vê-la. Nem que fosse só mais uma vez. Era ridículo pensar que saciar aquela vontade fosse fazer alguma diferença, porém, a cada dia que passava, o demônio sentia mais vontade de se encontrar novamente com a garota imaculada.

Mas o que faria ao revê-la? Ela estava com a marca, e certamente o odiava por isso. Como se a raiva dela importasse…

Importava?

Guerrard sentia que precisava de um motivo para se encontrar novamente com Lúcia. Mas qual?

— Olá meu príncipe… – sussurrou uma mulher ao pé do ouvido de Guerrard.

Era Lex. Só podia ser aquela criatura inconvenientemente irritante.

Na verdade, todas as succubus eram irritantes para Guerrard. Só pensavam em sexo, e viam no príncipe infernal apenas a oportunidade de ensinar os prazeres da carne aquele que seria o dono daquela posologia no futuro. Elas acreditavam que assim como o pai, ele seria a melhor experiência da existência delas, e a primeira a chegar seria uma sortuda felizarda. Mas Guerrard nunca ligou para sexo. Tinha coisa mais relevantes para pensar ou fazer, ao invés de ficar fornicando com uma luxuriosa chata e sem controle. Para piorar, a insistência delas, era ainda mais irritante, sempre provocando mais sua ira, do que qualquer tipo de luxúria.

— Então! Quais os planos para o carnaval? – disse ela sorrindo – Posso finalmente te ensinar como se divertir nessa festança regada de luxúria e prazer?

— Laz… Tire-a daqui. – rosnou Guerrard ao perceber que o íncubus estava ali.

Laz imediatamente se valeu de suas duas caudas serpenteantes para imobilizar e suspender a irmã, que parecia se divertir com a ação.

— Ho, ho, hooo! Isso tá interessante! – gritou a succubus entusiasmada.

— Cala a boca, puta dos Infernos! – rosnou Guerrard – É incrível como essa cabeça desprovida de cérebro não saca quando é indesejada!

— Aí! Assim… – Lex não conseguiu concluir sua frase, pois o irmão lhe tapou a boca.

— Me perdoe, meu príncipe. Há algo que possamos fazer por você em relação às almas que precisa terminar de coletar? Creio que Lord Abaddon se perguntará em breve o porquê de sua demora em retornar.

Era isso!

— Mantendo essa vadia que chama de irmã longe de mim, já está ótimo! Porém, seja mais eficiente nisso, Laz. – alertou Guerrard se dirigindo à saída – Tenho coisas mais importante pra fazer e seria ótimo não ter que ver a fuça dela. Nunca mais, de preferência…

Partindo antes que o íncubus pudesse responder, rapidamente Guerrard se viu diante de uma pequena agência dos Correios, que mais parecia uma simples casa cinza com a logo da empresa de serviços postais na fachada. Era até engraçado o fato dela ficar entre um estacionamento e uma pequena livraria.

Lá estava Lúcia, saindo da agência. Sua mente fervilhava em reclamações, se lamentando o tempo que perdeu ao ir até ali, para descobrir que seu plano de ensino se quer saiu daquele lugar por conta de uma greve. Isso sem contar que ela havia esquecido de ir atrás de sua pós-graduação em uma faculdade. Basicamente, nada do que ela havia planejado para fazer ao se mudar havia se concretizado, tudo estava dando errado, fazendo Lúcia se perguntar se teria com as coisas ficarem piores.

— Sempre tem… – comentou Guerrard para que ela notasse sua presença.

— O que quer? – perguntou a moça em tom seco.

— Credo! Isso são modos de me tratar? – ele retrucou ao estranhar o comportamento atípico.

Estaria ela tão irritada assim? Ela sempre foi serena e calma, mesmo quando ele a provocava ou amedrontava, mas agora ela estava… Diferente…

— Poderíamos ir para um lugar mais reservado? – perguntou Guerrard sussurrando ao pé do ouvido da garota – Não creio que gostará que outras pessoas escutem o que vim lhe pedir.

Lúcia engoliu em seco. Ela estava apreensiva, imaginando que ação humilhante e constrangedora ele faria com que ela se submetesse. 

— Não chega a tanto. Mas vamos sair daqui. – resmungou o demônio, enquanto saía de onde estavam, seguindo a calçada.

Lúcia o seguiu, já preocupada com o que viria a seguir. Os pensamentos dela saltava entre todas as possibilidades baseadas no que Guerrard já havia mandado ela fazer. Eram hipóteses e memórias que iam e vinham numa velocidade que fez com que Guerrard decidisse parar de prestar atenção, antes que sua cabeça explodisse.

Ele apenas precisava que ela fosse a um lugar. Apenas isso. Não parecia absurdo. De quebra, teria exatamente o que queria: uma desculpa para vê-la; um pretexto para justificar deixá-la em paz; e a última alma que havia negociado, e que quase esqueceu que existia.

Andaram por um bom tempo, até encontrarem o estacionamento de uma casa que estava vazia. Era praticamente impossível ver o que acontecia ali dentro, por conta das árvores não cuidadas que obstruíam a visão da entrada do local. Lá, o demônio parou de andar e puxou Lúcia pelo braço para dentro do estacionamento, colocando-a contra a parede do fundo, e saindo da zona de visão dos carros na rua.

— Hoje vamos para uma festa. – revelou Guerrard.

— O que? – Lúcia parecia não entender.

— Hoje começam as festanças de carnaval. Tenho certeza que um certo alguém estará em um lugar específico por conta disso. – falava o demônio sem demonstrar muita emoção. – Antes de negociar sua alma, eu tinha mais algumas na frente. Tom e Mercedes eram umas delas.

Lúcia se sentiu mal ao ouvi-lo mencionar Mercedes e isso gerou um certo desconforto em Guerrard.

Acabe logo com isso!

— Mas tem mais uma faltando antes da sua. Porém, quero lhe propor um adendo ao nosso acordo.

— Como é? – questionou Lúcia incrédula.

— Disse que enquanto me servisse como escrava a manteria viva. Não pretendo mudar isso. Mas me ajudando a pegar essa última alma, posso prometer lhe deixar em paz até o dia de sua morte, onde só então eu recolheria sua alma. Que tal?

A resposta não veio tão rápido como Guerrard queria, mas já era de se esperar daquela garota maluca e sem amor próprio. Ele se esforçava para parecer calmo e sem expressão, para esconder o quanto a demora dela em responder ou tomar decisões o irritava, mas esse tipo de atitude fez com que ela ficasse mais confusa e cogitasse a possibilidade dele estar mentindo, e por mais que ele fosse um demônio babaca, mentiroso era algo que definitivamente ele não era.

— Só pra constar, eu nunca minto. Provavelmente prefiro não falar toda a verdade, mas mentir não faz meu estilo. – respondeu Guerrard a encarando com uma leve nota de raiva e indignação na voz.

Lúcia ficou surpresa com o comentário. Sua mente fervilhava em cada vez mais questões sobre como eram os demônio, mais em específico, aquele a sua frente. Mas os pensamentos delas eram tolos, baseados em crendices e superstições equivocadas, e isso estava começando a ficar irritantemente insuportável.

— Pare de ficar remoendo essas coisas. Vai aceitar a nova proposta ou não? – Guerrard parecia claramente mais irritado.

— E como ficariam Suelen e Heliot?

— Fala sério! Você realmente só pensa neles?

Que garota CHATA!

— Me vendi a você para protegê-los. Realmente lhe parece tão absurdo que eu pense nos dois, antes de pensar em mim? – Lúcia encarava o demônio, agora era ela quem estava irritada.

Aquela resposta pegou Guerrard de surpresa. Pensando daquele modo, fazia todo sentido o raciocínio dela, embora isso não a tornasse menos irritante, mas…

Saco!

Guerrard suspirou derrotado depois de um tempo em silêncio.

— Como eu já havia dito. – ele se afastou um pouco dela – Estarão protegidos de perigos externos a eles enquanto você viver. Com o que lhe proponho agora, só o que muda é que esperarei até o dia em que você morrer para recolher sua alma. Isso pode ser amanhã, daqui quinze, trinta, sessenta anos… Não importa! No dia em que a Morte decidir que é a sua hora, eu estarei lá para levar sua alma comigo para o Inferno.

A última frase soou extremamente sombria para Lúcia. Ela havia se esquecido que ao fechar o pacto com o demônio, automaticamente sua alma estava condenada ao Inferno.

— Mas… E quanto a essa marca que colocou em mim? – perguntou Lúcia com receio da resposta.

O demônio bufou irritado.

— Isso não está negociável. – ele a encarou de forma estranha, sem entender porque estava se irritando em explicar aquilo – Ficará com ela até me dar o que lhe pedi.

— Por que faz tanta questão disso?

— Tenho meus motivos… – respondeu ele quase que imediatamente.

E quais seriam? É só a aposta? Tem certeza?

— Motivos? Que motivos um demônio teria para querer que uma mulher o beije de livre e espontânea vontade? – o tom de indignação de Lúcia fazia com que ela fosse gritando aos poucos – Ainda mais você tendo poder sobre mim. Pode me ordena a fazer o que quiser, e agora me aparece com essa proposta de me deixar viver em paz, mas não pretende tirar essa… COISA, de mim. Como pretende que eu viva em paz com isso?

— Eu deveria me importar com isso? – respondeu Guerrard friamente – O que você vai fazer da sua vida, não me importa.

Tem realmente certeza disso?

— Se não quer me dar o que quero para retirar essa marca, também não me importa. Só o que realmente me tem utilidade em você é sua alma.

De fato aquelas palavras eram verdade, mas lá no fundo algo gritava, tentando dizer algo mais sobre aquela garota, que só tem testado a paciência de Guerrard e ainda estava viva.

— Então porque RAIOS me fez vender meu corpo a você se não lhe é útil? – Lúcia agora estava gritando com o demônio, o encarando com raiva.

Porque?

A raiva nos olhos que Lúcia não chegava nem perto de ser intimidadora, mas olhar aquele sentimento, que era tão bem compreendido por Guerrard, nos olhos dela, provocou um embrulho no estômago do demônio. Se é que isso era possível.

Estava na cara que esse não era o rumo para o qual ele queria que aquela conversa fosse. Ele estava ali só para justificar ficar mais um tempo com a garota, para então deixá-la em paz. Mas ela tinha que pisar nos calos dele!

Guerrard já estava cansado de sempre exigirem que ele se explicasse sobre aquele pacto. Porque dizer que simplesmente quis fazer aquilo não era uma resposta boa o suficiente? Porque ele tinha que ter um motivo?

Que MERDA!

Sem responder à pergunta de Lúcia, Guerrard a apertou contra a parede segurando-a pelo pescoço. Podia-se ver claramente a fúria em seus olhos vermelhos. Havia um desejo assassino neles, mas algo o impedia de acabar com ela naquele instante. Era a mesma sensação de noites atrás. Mas aquela sensação não diminuiu sua raiva, apenas a aumentou, pois ele estava se cansando de sentir aquelas coisas que não entendia de onde vinham.

— O que faço ou deixo de fazer não te interessa. – respondeu ele rispidamente. – Me encontre na interseção entre a rua Coronel Diogo e a Mariano Procópio, às oito em ponto. E se não aparecer, terei o prazer em tornar sua vida um inferno, até que implore para que eu leve sua alma o mais cedo possível.

O demônio então a soltou jogando-a contra o chão.

— Se aparecer, te deixo morrer em paz no seu tempo. Mas sabe o que tem que fazer para que eu retire essa marca de você. – ele se dirigia para a saída do beco – Quem sabe você não muda de ideia até a noite…

Aquela aposta idiota não importava mais, porém, no fundo Guerrard queria conseguir aquele beijo, pois tanto problemas e confusões haviam surgido por conta daquilo, que a curiosidade de saber qual era a sensação de beijar aquela garota estava cutucando sua mente. Ele queria aquilo, e provavelmente mais do que queria ganhar aquela aposta imbecil, mas se ela continuasse se recusando, ele não podia fazer nada além de provocá-la.

— A propósito. Vista algo bem sexy.

Ele então sumiu, deixando Lúcia sozinha no beco. Em questão de segundos Guerrard já estava em cima de um prédio baixo que ficava em frente ao local que ele disse para Lúcia o encontrar, e se não fosse pela pilha de caixas de papelão e pedaços de isopor amontoados ali, provavelmente ele teria destruído algo da estrutura do prédio.

— Vista algo SEXY!? – ele berrou e riu logo em seguida – É sério que eu disse isso?

Guerrard se justificava dizendo a si mesmo que aquilo era necessário para o que precisavam fazer naquela noite. Mas seria só isso?

 

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ATRÁS DE UM BEIJO | CAPÍTULO 4

CAPÍTULO 4

Como se já não bastasse o tédio, a voz irritante de Victor rodeando sua mente com as insinuações de que ele, Guerrard, Príncipe do Inferno, filho do Primeiro Demônio, estaria… Gostando, da garota imaculada, estava para levar sua curta paciência ao limite da explosão.

Era ridículo!

Só porque ela o fazia sentir coisas diferentes e estranhas, significava que ele gostava dela?

Isso não fazia o menor sentido!

Ele detinha o poder sobre o corpo e a alma dela, isso por si só era um tipo de pacto inédito, que ele teve a ideia de fazer… Por que mesmo?

O que importa o motivo!? Ela lhe pertencia, PONTO! Por que raios era preciso classificar o porquê dele querer vê-la, dele exigir que ela não se envolva com outros homens, que ele fique…

— Mas que MERDA! – gritou Guerrard se levantando furioso do sofá e o chutando.

O sofá voou até o outro lado do cômodo e se espatifou em milhares de pedaços, deixando um monte de destruição no lugar da ex-mobília e espalhando estilhaços por todo lugar. E antes que pudesse se dar conta, estava na casa de Lúcia.

Quando havia decidido ir para lá, Guerrard não saberia dizer, tanto menos conseguiria explicar como foi parar lá tão rápido e do outro lado do véu da Umbra. Mas uma coisa era certa, ele ficou surpreso ao ver que Lúcia se esforçava para continuar a viver normalmente, mesmo com a dor. Ela inclusive a provocava para entender até onde aquela marca amaldiçoada a impediria de parecer normal com o resto do mundo.

Ela preferia sofrer sozinha e ver que os outros ao seu redor estavam bem, à se preocupar com a própria dor.

Tola!

— Credo! And, por acaso você tá roubando sorvete do freezer de novo? – gritou Heliot para o amigo – Tia Gui já tá terminando o almoço.

— Tá doido cara? Eu estou aqui… – respondeu o rapaz que descia a escada.

— U é! O que…?

O demônio então teve sua atenção roubada pelo garoto que olhava fixamente para onde ele estava, procurando algo que não tinha certeza se estava ali. Guerrard percebeu que sua raiva estava distorcendo o ambiente ao seu redor novamente, tal como havia sido com o trem, e o garoto sentiu por estar perto dele.

Era um desperdício continuar ali. Nunca entenderia a garota imaculada. De nada adiantaria perder mais tempo ali, vendo ela tentar entender porque aquele otário, que roubou um beijo dela, a fazia sofrer mais. Tudo aquilo era uma perda de tempo!

Novamente sem sentir, Guerrard se viu mudar de lugar novamente. Agora porém estava no meio de uma espécie de floresta, no meio de sabe-se lá onde. A raiva que Guerrard passava a sentir naquele momento estava se externando em tentáculos de energia sombria e se espalhando pela mata, que começam a se deteriorar com sua presença.

— Merda! – gritou ele furioso, socando uma enorme rocha até pulverizá-la – Ela… – ele arranca pedaço de algumas árvores com as garras – Por que ela…?

Guerrard não estava sabendo lidar com o que sentia. Era tudo muito estranho, fora de qualquer coisa que ele poderia chamar de “zona de conforto”. A cada vez que ele voltava a ver Lúcia lutando para continuar sua vida, se esforçando para manter aquilo que protegia sua família, e não mudando em nada a pureza de sua alma imaculada… Tudo isso o deixava confuso, por consequência, irritado.

Mais uma vez um grito furioso, que podia muito bem ser confundido com um rugido, irrompeu pela garganta do demônio, que continuava a descontar sua raiva e frustração na vegetação.

— Melhor acabar logo com isso… – murmurou Guerrard enquanto parava o acesso de fúria – Isso! Já perdi muito tempo com aquela… É isso. Tá na hora dela morrer…

Foi então que do fundo da floresta, ele pode ouvir algo se aproximando. Eram passos velozes e frenéticos. Certamente de algum animal caçando, ou no caso, vários animais caçando. Guerrard deixou que a presença ao seu redor roubasse sua atenção, ajudando a conter sua raiva, permitindo-o se controlar, mas não eliminando aquele sentimento que lhe era tão corriqueiro.

— O que temos aqui? – disse uma voz meio rouca.

— Vejam essa destruição! – rosnou outra voz.

— Cuidado! Pode ser um DELES. – grasnou uma terceira voz.

Guerrard estava cercado por todos os lados. Eram lobos enormes que vasculhavam a região a procura de caça, mas se depararam com a pequena clareira de plantas mortas e destruídas, criadas pelo demônio em fúria. Eles tagarelavam em seu dialeto, mas como demônio, qualquer língua, mesmo as mais antigas, lhe eram compreensíveis. Logo, Guerrard pode perceber que aqueles não eram simples animais. Eram lobisomens, e não estavam felizes com sua presença ali.

— Não é possível que esse humano tenha feito tudo isso! – reclamou uma das feras.

— Não é um humano, seu imbecil. Não sente esse cheiro? – rosnou o lobo maior – É uma criatura maldita!

Criatura maldita… Será que…?

— Por que vocês não calam a PORRA da suas bocas, e vão embora daqui! – rugiu Guerrard se irritando com seu último pensamento.

— O que? Ele nos entende! – se espantou um dos lobos.

— Saia daqui MONSTRO, ou não teremos piedade em dar um fim à sua vida! – retrucou o lobo maior.

Guerrard riu com escárnio.

— Vida… – os olhos dele começavam a brilhar, e as sombras a envolvê-lo, mudando sua aparência de humana para a bestial demoníaca – Deveriam se preocupar com a de vocês!

— Alfa! O que é isso?! O que é essa criatura?

Não houve mais diálogo depois daquilo. Guerrard deixou seu ódio falar por si, tentando afogar sua confusão e os estranhos sentimentos pela garota de alma imaculada. Ele deixou seu animal interior lhe dominar e trucidar o que estava ao seu redor, quebrando ossos, dilacerando carne e devorando almas…

A alguns passos dali, um lobo menor estava a espera de seu bando. Era sua primeira experiência naquela pele e em meio a natureza, por isso foi deixado de lado pelos companheiros. Porém, ao som do primeiro ganido de dor, o instinto fez com que o pequeno lupino corresse para auxiliar sua matilha, mas ao chegar até eles, apenas viu uma enorme besta negra, feita de sombras, sobre os cadáveres de seus amigos, devorando uma espécie de esferas de brilho prateado que pairava sobre os corpos. A cena lhe provocou um gélido arrepio, e o corpo congelado pelo choque, passou a correr em fuga na direção oposta.

As quatro patas eram velozes, mas a forma de lobo não era a que tinha mais familiaridade, logo, depois de algum tempo, o lupino mudou para sua forma humanoide, revelando que na verdade se tratava de uma fêmea ainda jovem.

A garota era hábil com as pernas, mas a floresta ainda era território novo para suas habilidades, se demonstrando traiçoeiro quando subestimado. Sem perceber, a jovem acabou tropeçando em uma raiz e caindo em uma clareira, rolando e ralando a pele desprovida de vestes ou proteção na queda do barranco, apenas parando ao chegar no fundo, desacordada.

O demônio não havia permitido que a sua última presa fugisse. Havia anos que não caçava e se alimentava daquela forma. Apenas as bestas infernais ancestrais é que eram capazes de devorar almas, mas ele, por ser filho de quem era, também podia fazer aquilo, no entanto, assim que descobriram que ele podia se alimentar das almas daquela forma, o proibiram de fazer o mesmo, uma vez que a alma se perdia por completo dessa forma, se misturando à própria essência do príncipe demoníaco, ao invés das sobras integrarem as forças do Inferno. Era um excelente meio de aumentar seu poder, mas com isso, não haveriam remendos de almas para gerar novos demônios.

Ao se aproximar do local da queda da garota, Guerrard saltou para cair literalmente de boca em sua última presa, mas ao se aproximar e ver um corpo desprovido de roupas, com pele clara e cabelos negros que se ondulavam escondendo o rosto, ele se petrificou.

A imagem de Lúcia se remontava em sua mente. Não era ela. Ele sabia que não era ela. Mas sua mente o fazia acreditar que era ela. E diferente da decisão que havia tomado… Guerrard não conseguiu matar a garota. Para piorar, ele também não conseguiu mais se manter em sua forma bestial, voltando a ser o homem de antes. O homem que não tinha mais certeza do que queria.

A garota abriu os olhos, e ao se deparar com o olhar amedrontado, de ires claras e cristalinas, a presença de Lúcia se fez muito mais forte em sua mente, e Guerrard decidiu partir, levantando voo e abrindo uma fenda que o levaria dali.

Victor tinha razão em um ponto… Era melhor deixar a garota em paz.

 

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ATRÁS DE UM BEIJO | CAPÍTULO 3

CAPÍTULO 3

Ciúmes…

Victor só podia estar de brincadeira… Mas e se ele estivesse certo?

Óbvio que ele não está!

Guerrard estava deitado no sofá surrado do apartamento inóspito que chamava de “casa”. Ele olhava fixamente para o teto, remoendo os últimos acontecimentos, se contendo para não sair destruindo o pouco que tinha restado naquele lugar. Mas era inevitável a irritação que era se lembrar da afronta de Lúcia e as teorias absurdas de Victor. Parecia que os dois haviam se unido para tirá-lo do sério.

No entanto, ficar ali parado estava sendo ainda mais irritante do que seus pensamentos. Guerrard odiava se sentir entediado. Logo, para fugir daquela situação, ele pensou em ir ver como estava o desespero da garota que lhe negara algo tão simples como um beijo.

Qual é o problema dela?

Era ridícula aquela situação. E talvez fosse mais ridícula a forma como ele reagiu a tudo aquilo. Mas Guerrard não dava a mínima para o que pudesse parecer. Aquele maldito vampiro podia acreditar no que quisesse, mas se o demônio não acreditava, nada poderia ser feito a respeito enquanto ELE não mudasse de ideia. E do que dependesse dele, nunca mudaria.

Guerrard então se concentrou para encontrá-la.

Isolado e quente… Um cheiro forte de álcool, iodo e produtos de limpeza… Paredes brancas e uma cama cheia de lençóis… Ele então viu em sua mente a imagem de uma mulher de cabelos negros e olhos cor de âmbar conversando com uma pessoa de jaleco… Parecia um médico.

Um hospital? O que terá acontecido?

Ao se jogar diretamente para aquele lugar através da Umbra, Guerrard ainda pode pegar um pouco do diálogo da mulher e o médico. Se tratava de Suelen, a prima de Lúcia, e ela estava preocupada com os ataques febris que a prima vem tendo desde antes do Natal.

Não foi preciso muito esforço para que o demônio assimilasse os surtos mencionados pela mulher, aos eventos em que ele havia interagido de forma mais “intensa“ com a garota imaculada. Aparentemente, ele era uma influência muito negativa para aquela alma tão pura.

Mas como ele poderia prever isso, ou mesmo, o que ele podia fazer a respeito?

Não era a intenção dele colocar uma marca amaldiçoada nela, na verdade, se ela nunca lhe desse motivos, ele nem se lembraria que Victor lhe havia ensinado aquele tipo de coisa. A culpa era dela. Ela que sofresse com as consequências. A ele apenas lhe restava rir dos esforços inúteis de tentarem descobrir o que a fazia passar mal.

Assim que Suelen e o médico saiu do quarto, Guerrard decidiu se sentar ao lado de Lúcia, para esperar ela acordar. Era bem verdade que ele podia acordá-la naquele instante, o que a importunaria muito mais, porém, naquele momento ele não sentia pressa alguma de fazer algo, tanto menos de partir. A alternativa era o tédio, coisa que nunca sentia ao estar com Lúcia, logo, ficar com ela era realmente mais interessante que qualquer outra coisa que pudesse estar fazendo.

No entanto, o que ouvia se passar na mente dela era um pouco perturbador. Ela estava reprisando os eventos que resultaram em sua ida ao hospital. A dor, o medo e o desespero inundavam seus sonhos e podiam ser sentidos nitidamente por Guerrard, que não sabia como lidar com aquilo. Tudo o que estava sentindo através dela lhe era muito estranho e confuso, basicamente ele não sabia o que fazer, e se sentir perdido daquela forma estava começando a irritá-lo.

Um suave gemido anunciou que ela estava despertando. Imediatamente Guerrard afastou da própria mente os pensamentos dela, para se concentrar nos próprios, que eram muito mais coerentes no ponto de vista dele.

— Olá! – cumprimentou Guerrard abrindo um sorriso meio sínico – Pensei que nunca mais fosse acordar hoje.

— O que estou fazendo aqui? – Lúcia parecia confusa.

— Você passou mal e sua prima a trouxe para o hospital, para um médico verificar o porquê de você está assim. – disse o demônio rindo – Mal sabem eles que não vão encontrar nada.

— O que?

— Isso não deveria acontecer. – disse Guerrard de forma pensativa – Mas parece que sua alma de imaculada não tem reagido muito bem ao nosso pacto.

— O que? É você que está fazendo isso comigo?

— Não! Presta atenção no que eu falo. – respondeu irritado – Como eu disse e você ignorou. Isso não deveria estar acontecendo. Mas por algum motivo, sua alma está reagindo mal ao pacto que fez comigo, aí no fim das contas, você fica tendo essas crises.

— Mas vai ser sempre assim? – perguntou Lúcia com preocupação na voz.

Guerrard pensou por um instante. Ele não tinha certeza daquela resposta. Na verdade, toda aquela situação era inédita, não só para ele, mas para qualquer outro ser infernal, por isso era difícil saber até o porquê daquilo estar acontecendo com ela, logo…

— Espero que não. Você vai ser uma inútil se ficar passando mal assim sempre. – respondeu Guerrard um tanto disperso por ainda está pensando no assunto – Talvez essa seja a última vez. – ele tamborilou o queixo com os dedos de forma pensativa – Deve ser uma reação à marca que coloquei em você.

Fez-se silêncio por alguns segundo, enquanto Lúcia relembrava tudo que havia ocorrido desde a noite anterior, ao incidente daquela manhã.

— O que fez comigo?

Sério!? Ela sabia o que tinha acontecido, foi rápida em perceber que não poderia tocar em nenhum outro homem. Por que raios precisava de uma confirmação?

— Você já sabe o que eu fiz. Não se faça de idiota. – respondeu Guerrard irritado.

— Então… Essa marca, serve para…

— Te fazer sofrer. – ele ficou encarando a cara de espanto de Lúcia – Você conseguiu me irritar ontem. Apenas lhe dei o troco.

— Mas, mas…

— Não me venha com esses “mas”. Já tá feito e não vou desfazer até que mereça.

— Merecer? – Lúcia não entendia o que o demônio queria dizer com aquilo.

— Sabe minha condição.

Lúcia olhou para Guerrard com cara de descrente. Sua mente fervilhava em dúvidas e indignações, por tudo que estava acontecendo agora ser resultado da negação de um beijo. Um simples beijo! Era sério que o demônio estava fazendo todo aquele estardalhaço, por conta de um beijo?

— Eu ouvi isso.

— Pare de ouvir meus pensamentos! – gritou Lúcia colocou as mãos na cabeça.

Guerrard riu da reação da moça. Como se tapar os ouvidos fosse impedi-lo…

— Sinto muito guria. Mas isso vem incluso no pacote.

— Como é?! – ela o encarou confusa.

— Ontem me fez várias perguntas. — começou Guerrard se recostando no assento em que estava – Tá aqui algumas respostas. Me dando poder sobre seu corpo, alguns canais de ligação foram feitos para que eu tenha fácil acesso a você. Posso ouvir seus pensamentos. Sei sempre onde está, e inclusive, posso ir a qualquer lugar em que esteja, ou por onde já tenha passado. – o ele abriu um sorriso – Legal né?

Obviamente que ela não gostou de saber aquilo. Os olhos arregalados e a cara de espanto e descrença, eram a prova de que ela não tinha ideia da extensão do poder sobre ela que havia dado ao demônio, e era claro que ela não estava contente com tudo aquilo.

— Ontem não queria me responder essas coisas. Por que o está fazendo isso agora?

Por que?

Honestamente era uma boa pergunta. Mas como Guerrard não parava muito para divagar o motivo pelo qual fazia algumas coisas que fazia, o motivo obvio que lhe veio claro na mente fora:

— Tédio.

Afinal, foi por isso que ele foi atrás dela. Não?

— Como?

— Eu estava sem fazer nada. Decidi vir te importunar um pouco. Ver como estava, sentindo dor ao tocar qualquer homem que não seja eu. Confesso que não esperava encontrá-la hospitalizada. – Guerrard olhava para o quarto, ele realmente não esperava encontrá-la ali – Mas pelo menos aqui temos um pouco de privacidade. Que nem no seu quarto. – ele sorriu para ela, com o seu característico sorriso felino.

Normalmente Guerrard sorria daquela forma para deixar Lúcia insegura e nervosa. Sentir a mente dela se desestabilizar por conta do medo de não saber as intenções do demônio, dava a ele uma sutil sensação de controle que o satisfazia. Mas naquele momento, aquela sensação não veio, pois ao invés de ter medo, ao vê-lo sorrir daquela forma, Lúcia sentiu… Prazer?

— Oi?! – exclamou Guerrard sem conseguir conter sua surpresa.

Mas ela não teve tempo de falar ou de pensar em outra coisa. Sua cabeça girou e ela voltou a desmaiar, recostando a cabeça no travesseiro da cama em que estava.

Guerrard continuou olhando para a moça desmaiada. Tinha algo diferente nela, mas ele não sabia o que. Era uma sensação estranha, como se a aura de pureza que sua alma imaculada irradiava, estivesse mais intensa e lhe provocasse uma sensação de… Atração!

Sem pensar muito no que fazia, Guerrard se levantou da cadeira e se aproximou de Lúcia, como se a analisasse.

— Você está diferente. – murmurou ele olhando para o corpo dela – Mas o que é?

Guerrard analisava Lúcia atentamente, se aproximando ainda mais dela para isso. Sua respiração estava fraca, porém suave, soando como uma brisa tímida de primavera. Ela era tão linda… Serena… Pura…

Sem se dar conta, Guerrard estendeu a mão e passou por uma mecha de cabelo que estava caindo sobre o rosto dela. Com isso ele pode sentir um formigamento aprazível em sua pele, e ao remover a mecha de cabelo, sua atenção se caiu sobre os lábios de Lúcia.

Delicados… Rosados… Deviam ser macios e quentes…

Uma vontade enorme de tocar aqueles lábios com os próprios, fez com que mais partes do corpo de Guerrard se aquecesse e reagisse aquele desejo inédito. Porém, ao perceber o que estava acontecendo, ele se sentiu extremamente patético, por se deixar levar por aquele… Devaneio?

Ridículo!

— Nah! Aquele merdinha do Victor não pode estar certo… – resmungou ele, se apressando para sair pela porta do quarto.

Por um segundo ele ficou parado diante da porta recém fechada. Pensando na possibilidade de entrar novamente…

Mas, mais uma vez a sensação de estar sendo patético o tomou e ele se virou irritado para partir, mas se deparou com a última pessoa que desejava ver naquele dia. Principalmente naquele lugar, com Lúcia à uma porta de distância…

Fala sério!?

— O que você está fazendo aqui? — era Ector, o idiota que beijou Lúcia.

— O que VOCÊ faz aqui? – retrucou Guerrard irritado.

— Sou colega de trabalho de Lúcia, vim ver como ela está. E você? – perguntou Ector com certa desconfiança.

— Não é da sua conta! – respondeu rispidamente.

E não é da sua conta MESMO!

Guerrard voltou a seguir seu caminho pelo corredor. Porém, Ector segurou o seu braço e ficou o encarando. Tinha raiva em seu olhar, mas além disso, aquele cara irritante parecia procurar alguma coisa nele.

Que idiota!

Ambos trocaram olhares furiosos por alguns segundos que pareceram horas, mas nada disseram nesse meio tempo. Até que Guerrard perdeu a paciência e puxou seu braço de volta, encarando Ector com um olhar extremamente furioso.

— Qual é a sua cara?! Deixa de ser otário! – Guerrard então seguiu pelo corredor para sair do hospital.

Mas… Por que estava saindo pela porta?

 

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ATRÁS DE UM BEIJO | CAPÍTULO 2

CAPÍTULO 2

Já era relativamente tarde, e Guerrard esperava Lúcia chegar em sua casa. Ele optou por aguardar em frente a residência onde ela morava, através da Umbra, pois dessa forma ele teria um tempo para esfriar a cabeça. Mas assim que ele a viu na garupa da moto de outro homem, qualquer tentativa de ficar mais calmo se foi.

E como se não bastasse, ela permitiu que AQUELE homem a beijasse, sem reclamar.

O sangue fervia e a indignação era crescente, fazendo aquela raiva tão comum a Guerrard, se tornar uma explosão de fúria.

Mentirosa!

Através da Umbra, o demônio se esgueirou até o quarto de Lúcia, só aguardando ela chegar para poder puni-la por sua mentira, pois não apenas ela havia mentido, como havia desrespeitado aquele que era seu dono por direito. Ela se vendeu a ele, era dele todo o direito sobre o corpo dela, logo, ela não podia simplesmente se negar a ele e se oferecer a outro.

Não! Ela era dele!

Ao entrar no quarto, Lúcia foi tirando a blusa de frio e os sapatos para ficar mais confortável, depois daquele dia difícil de engolir. Mas a mão com garras afiadas apertando seu braço, fez todo e qualquer conforto se esvair e dar lugar a um pânico avassalador.

— É assim sua vadia! – Guerrard urrou furioso – Eu lhe peço com educação um simples beijo e você me nega. Soltando um papo mequetrefe, sobre não beijar quem não ama. Mas quando aquele otário lhe rouba um beijo, você apenas fica acanhada e sorri pra ele!?

A raiva tomava o demônio, fazendo aos poucos sua aparência se modificar, deixando a experiência aterrorizante para Lúcia a cada segundo que se passava. E por algum motivo, sentir o medo dela estava irritando ainda mais Guerrard.

— Me larga. – pediu Lúcia aterrorizada.

— Não! Você é minha! Me deu direto sobre seu corpo e sua alma para manter sua prima e afilhado seguros. – ele rosnou como uma fera arisca – Ou deseja que eu os mate agora mesmo, para se ver livre de mim?

— Não! P-por favor. – a voz de Lúcia saía trêmula em meio ao medo e lágrimas – Deixe-os em paz. Por favor. – ela pediu soluçando.

— Então, se deseja o bem deles, me obedeça como uma boa escrava. – disse Guerrard em meio a outro rosnado.

Ela nada disse. A raiva de Guerrard aumentava a cada reação de medo de Lúcia, era como se sua raiva fosse alimentada pelo medo dela, porém, não porque ele queria que ela reagisse de outra forma, mas porque ele não sentia o mesmo prazer de antes ao vê-la temê-lo.

Guerrard sentia que havia algo de errado acontecendo. Algo não estava certo. E não entender o que estava errado era irritante.

— Vai me obedecer? – perguntou depois de um tempo em silêncio, mas sua voz ainda saia com um rosnado gutural.

— Vou… – respondeu Lúcia engolindo o choro.

— Boa garota… – era perceptível o sarcasmo em meio a raiva. – Então, vai me deixar beijá-la?

Lúcia assentiu com a cabeça.

Na expectativa de não conseguir se aproximar dela, mesmo com o consentimento, Guerrard levou o rosto para se aproximar do dela. Mas antes que pudesse tentar beijá-la, no fundo de seus pensamentos, Lúcia recitava uma espécie de mantra que expressava seu desejo de não ser tocada por ele, tamanho era seu medo.

Ela tinha mentido sobre a permissão.

— Mentirosa! – furioso, o demônio a arremessou contra a cama.

No gesto, a blusa fina que Lúcia usava enroscou nas mãos de Guerrard, que agora eram como garras, e se rasgou, fazendo com que ela ficasse com o dorso despido. No susto, ela se agarrou ao lençol, mas com isso acabou ficando com as costas despidas à vista de Guerrard.

Sem ter total consciência do tempo que se passava, ele ficou observando a pele nua a sua frente. Guerrard sentiu seu corpo se aquecer de uma forma diferente com aquela visão. Ele sabia que a garota imaculada tinha um corpo desejável, mas ver aquele trecho de pele era a mostra irrefutável de que ela era realmente lhe despertava desejo. Sem perceber o que fazia, ele se aproximou da cama vagarosamente, desejando poder tocar aquele corpo. Ao ficar próximo a ela, Guerrard começou a deslizar as garras pela pele das costas de Lúcia, seguindo a linha da coluna.

Era extraordinário a sensação de tocá-la. Mesmo com as garras, Guerrard podia sentir uma aprazível descarga elétrica passar do corpo dela para o seu. Era fascinante. Mas o que para ele estava sendo bom, para ela estava sendo horrível. Sentir o medo e repulsa dela fez com que toda sensação boa sumisse, e uma raiva feroz se manifestasse com um grunhido carregado de ódio.

Se ela não sentia o mesmo que ele, não poderia sentir aquilo com mais ninguém. Ela lhe pertencia. De fato lhe pertencia. Era seu direito incontestável, concedido por ela mesma através do pacto. Devia impedir que ela fizesse aquilo novamente.

Foi então que Guerrard se lembrou de uma das várias coisas que Victor lhe ensinou. Certa vez, ele havia falado que alguns luxuriosos, a muitos séculos atrás, marcavam suas vítimas para facilitar sua captura. Era uma marca que inibiria o contato com o sexo oposto através da dor. Os luxuriosos usavam isso para que suas vítimas acreditassem que só a pessoa certa não lhe faria mal, em outros casos, para deixar a pessoa sedenta até não aguentar mais e se render ao demônio que a amaldiçoou. E no caso, essa ideia parecia perfeita.

Com as garras, Guerrard voltou a tocar nas costas de Lúcia, mas dessa vez com elas encobertas de chamas negras. Ele perfurava a carne e fazia talhos que desapareciam de imediato. A jovem imaculada gritava de dor, mas ele sempre dava um jeito de silenciar o quarto para que nunca fossem interrompidos. Dessa vez porém, ele se concentrou em silenciar os gritos dela, não apenas os sons que saiam do quarto.

Ele não queria ouvi-la gritar.

Por que não queria ouvi-la gritar?

Quando concluiu, ele se agachou para chegar bem perto do ouvido dela o mais perto que conseguia, e sussurrou, buscando voltar a se acalmar.

— Isso é pra você não se esquecer de quem é seu dono. – disse Guerrard em tom suave – Essa marca vai te lembrar quem é o único que pode tocá-la. – continuou ele tentando parecer sedutor.

Lúcia nada disse, a dor ainda era presente e ela só conseguia chorar, tendo em vista que seus gritos nunca seriam ouvidos por ninguém, nem mesmo por ela própria.

— Espero que reconsidere meu pedido quando eu voltar.

Então Guerrard partiu, segurando sua raiva, para descontá-la em outro lugar.

 

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ATRÁS DE UM BEIJO | CAPÍTULO 1

CAPÍTULO 1

As cenas descritas a seguir se iniciam em paralelo ao capítulo 10 “Beijo” do livro Luz e Sombra – Imaculada.

Este conto é um complemento para o 1º livro da série.

“Você gosta dela…”

Incrível como aquelas três palavras foram o suficiente para deixar Guerrard irritado.

Já estava irritado com aquela hipótese levantada por Victor, ouvir o mesmo de uma moribunda condenada ao inferno tinha sido a gota d’água para provocar sua ira. O fazendo ser imprudente mais uma vez.

Primeiro tinha sido negligente ao abandonar o corpo morto de Tom. Ter se irritado com a garota Imaculada o fez esquecer dos procedimentos, se lembrando de dar um fim àquele corpo apenas no dia seguinte, quando a polícia já o havia encontrado e investigando a cena do crime.

Agora, havia sido tão apressado em se livrar de Mercedes, que além de deixar o corpo para trás, provavelmente devia ter deixado marcas da alma removida no corpo. Porém, mesmo tendo retornado para concluir o serviço corretamente, já era tarde, pois uma ambulância levava o corpo para a autopista.

Guerrard procurou Lúcia pelo convento e seus arredores, mas como não a encontrou, fechou seus olhos para sentir onde ela estava.

Solitário e frio… Um cheiro pungente de poluição pútrida como um esgoto… Cadeiras e um enorme vão no chão… Foi então que ele viu em sua mente uma placa escrito “CPTM” e ouviu uma voz distorcida dizendo “Granja Julieta”.

Ele agora sentia onde ela estava, uma estação de trem CPTM, se surpreendendo ao perceber a distância já percorrida pela garota.

Um piscar de olhos e já estava ao lado dela. Lúcia estava sentada olhando para o vão do trem distraída, tentando se livrar das lembranças de ver duas pessoas morrerem ao terem suas almas removidas. Aquilo lhe deu um certo incômodo, mas Guerrard ignorou e se sentou ao lado dela.

“É ele…” o reconhecimento estampado nos pensamentos dela lhe deu um pouco de uma estranha satisfação.

— Estou surpreso. Como conseguiu chegar aqui tão rápido? – perguntou Guerrard sem olhar diretamente para ela.

— Um colega me deu carona. – Lúcia respondeu com desânimo.

Um colega? Teria sido o cara irritante que estava com ela no colégio?

Por algum motivo pensar naquilo o incomodava ao mesmo tempo que o irritava, mas era uma raiva diferente, ela apertava algo dentro de seu corpo e era extremamente incômoda, ao mesmo tempo que frustrante, pois ele não entendia direito porque se sentia daquele jeito.

— É o mesmo otário que encontrei mais cedo?

— Isso importa? – respondeu a garota em um forte tom ríspido e irritado.

— Que atitude é essa? – rebateu Guerrard ao se irritar com o tom de voz dela.

— Não é nada… – ela abaixou a cabeça. – O que mais quer que eu faça pra você hoje?

Estranhamente, vê-la se recolher daquela forma o deixou desconfortável. No entanto ele ignorou aquela sensação ao se lembrar que queria logo resolver aquela aposta que havia feito com Victor. Era algo simples. Não precisava demorar uma eternidade com aquilo.

— Eu já te disse mais cedo. – disse Guerrard se levantando para ficar de frente com a garota – Quero que me conceda um beijo.

— O que?

De novo ela reagia daquele jeito, como se ele tivesse pedindo para que ela pulasse de um precipício. Era tão surreal assim pedir aquele tipo de coisa? Ele via os humanos se beijando e fazendo coisas muito mais indecentes a torto e a direita. Por que ela fazia aquilo parecer algo terrível? Ainda mais ao pensar que ele poderia tirar aquilo dela a qualquer momento.

— Nah! Quero que faça por vontade própria. – respondeu o demônio.

— Oi? – ela o encarou com incredulidade e espanto – Do que você está falando? Eu nunca que o beijaria por vontade própria. Eu não sinto nada por você que justifique um gesto desse.

E mais essa agora!? O que ela queria dizer com aquilo?

— E vocês humanos precisam de motivo pra isso? – questionou Guerrard um pouco impaciente – Não é o que vejo por aí.

— Algumas pessoas não tem critérios. Eu tenho! – respondeu Lúcia.

— Ah, é? E qual seriam os seus?

Lúcia não respondeu de imediato. E aquele pouco tempo em que ela hesitou em responder pareceu uma eternidade, principalmente porque Guerrard podia ouvir a mente dela borbulhar em lembranças dos momentos em que esteve com ela, a torturando com seu assédio. Nas ocasiões que havia feito aquelas coisas parecia divertido provocá-la, mesmo que depois se sentisse impedido de fazer mais e acabava partindo irritado. Mas agora, ao ver a forma como ela se lembrava daquilo, um misto de desconforto, nojo e raiva se fazia presente em seu ser. Era muito estranho sentir aquilo. Era revoltante. Irritante. E…

— Não beijo pessoas que não amo. – respondeu Lúcia sem se importar com o que aconteceria, afinal, já se sentia condenada mesmo.

Aquilo fez Guerrard se despertar dos pensamentos que a hesitação dela havia provocado, mas não foi capaz de dizer nada de imediato.

No meio tempo, um vagão de trem chegou, desceram passageiros, subiram outros. No fim de toda movimentação, a plataforma ficou vazia, apenas Lúcia e o demônio estavam nela.

Guerrard calculava que ganhar a aposta que fez com Victor seria mais difícil do que desejava. Talvez a sugestão de deixar a moça em paz fosse de fato melhor, mas ele queria quebrar aquele jeitinho casto daquela garota. Queria que ela parasse de provocar aquelas coisas estranhas nele. Ele queria corrompê-la. Maculá-la. Acabar de vez com aquela sensação irritante de que ela, de alguma forma, nunca seria dele. De que aquela alma não lhe pertencia e nunca se mancharia. Apagar aquela luz que parecia o cegar e fazer com que ele tivesse atitudes imprudentes.

Foi então que uma ideia lhe veio, tão clara como a lua naquela noite.

— E se eu lhe oferecer sua liberdade? – disse Guerrard abrindo um sorriso maquiavélico.

— Como? – Lúcia foi pega desprevenida com a oferta – E como ficam Suelen e Heliot?

— Sei lá. O que importa? Você estaria livre, ora pois.

— Eles vão se machucar?

Ela insistia em querer saber se a família ficaria bem, e aquilo era muito irritante. Por que ela não podia ser como os outros humanos e apenas aceitar suas propostas?

— Como é que eu vou saber? – ele respondeu irritado – Não terei obrigação de mantê-los protegidos. Por que raios preciso me preocupar com isso?

— Então nada feito. – respondeu Lúcia cruzando os braços.

— Como?

Estava ali o lance de mártir que Victor havia dito. A maluca preferia continuar sofrendo nas mãos dele e manter os parentes seguros, do que voltar a ser livre.

— Você ouviu o que eu disse? Estou lhe oferecendo sua liberdade em troca de um mísero beijo. E você só está preocupada com aqueles dois? – questionou o demônio incrédulo.

— Se o beijo é tão mísero, porque faz tanta questão? – Lúcia o encarava nos olhos.

Guerrard já estava ficando muito irritado com aquela garota. Como era possível existir alguém tão idiota a ponto de colocar princípios morais tão frágeis, acima de sua própria liberdade?

Lúcia era realmente diferente.

Aquela estranha sensação apaziguadora de familiaridade que sentiu ao toca-la naquele beco imundo, já havia denunciado que ela era mais que uma mera alma imaculada. Ele só precisava descobrir o que exatamente era aquilo que a diferenciava dos outros humanos.

— Ok, se amar a pessoa que vai beijar é então importante, então me explique o que é isso.

— Explicar o que? – era perceptível a confusão no olhar dela.

— Esse tal de amor. – respondeu Guerrard com impaciência – Não sei se você se lembra, mas eu sou um demônio. Sentimentos como esse, são basicamente inexistentes em minha espécie.

Lúcia olhou estranho para ele. Ela tentou esconder sua surpresa, mas Guerrard sabia exatamente o que se passava naquela cabecinha profusa. E estranhamente, o suposto desconforto que ela sentiu ao ouvir aquelas palavras, também se fez presente nele, mesmo que em uma proporção bem menor, mas o suficiente para ser irritante sentir aquilo, sem entender o motivo.

— Não dá pra explicar o que é o amor.

Sério!?

Guerrard se perguntava porque ainda perdia tempo conversando com aquela garota incoerente.

— E como você sabe que sente algo, que sequer sabe explicar o que é?

— Não se sabe, apenas se sente.

Chega!

— Você tem noção da asneira que tá falando? – retrucou Guerrard irritado – Isso que diz não faz sentido. Me parece que esse lance de amor é mais uma de suas desculpas arbitrárias, que vocês humanos usam para justificar seus atos. Como pode ter certeza que não sente algo por mim?

— Mas eu sinto algo por você. Medo e raiva. Não é isso que quer que eu sinta? Pois é só o que sinto. E eu sei que nunca seria capaz de amar alguém desprovido de sentimentos. Um ser que seria incapaz de retribuir o amor que eu sentisse.

Aquelas palavras doeram. Guerrard disse que, por ser demônio, ele era desprovidos de sentimentos, mas aquilo não era completamente verdade. Ao menos não para ele. Tinha nascido humano. Ele teve sentimentos por sua mãe. Mas isso foi há tanto tempo… Tinham sido tão bem deteriorados no Inferno… Que ele acreditou ter se tornado desprovido dessas coisas.

Mas estava evidente que ele não estava certo sobre aquilo, além de não querer acreditar que era verdade.

Furioso, Guerrard fez menção de que iria dar um tapa em Lúcia, e por reflexo ela enrijeceu os músculos do rosto e fechou os olhos, mas o tapa não saiu. Ele não conseguia bater nela. No fundo, não sentia sequer vontade de agredi-la, mas sua raiva o tomou… E falhou…

Antes que ela voltasse a abrir os olhos, ele decidiu partir, correndo furioso pela Umbra. O que resultou em algumas distorções e interferências no plano físico, mas ele pouco se importava. Mesmo que um trem perdesse seu eixo de equilíbrio só por se chocar com sua aura furiosa.

Nunca se importou com essas coisas. Por que se importar agora?

Guerrard tinha que admitir que aquela garota o tirava do controle com uma certa facilidade. Não que ele fosse a criatura mais controlada do mundo… Nem de longe isso seria verdade… Mas por algum motivo, as ações de Lúcia lhe provocavam sensações que ele não compreendia, e sua única reação a elas era a raiva, pois era a única emoção que conhecia muito bem. No entanto, se queria acabar logo com aquela aposta estúpida, ele percebeu que precisaria ser um pouco mais paciente e conter sua raiva.

 

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